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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

 

Conversa à noite no Maiorca

 

 

O bar parece infinitamente extenso; ladrilhos brancos distribuídos em simetria, mas entrecortados por quadrados azuis, que vão até um teto de madeira pintada, branco fosco, e infinitamente alto em relação ao piso de ladrilhos também decorados, gastos.

Pendendo desse teto, fios e bocais, seis ou sete, com lâmpadas incandescentes. Na porta de entrada, uma placa de madeira indica que ali é o Bar Maiorca.

 É a primeira vez de Jack entra naquele misto de restaurante e botequim, conhecido apenas de relance, em passagens rápidas na calçada, trecho final da Praça Getulio Vargas, Nova Friburgo, perto do terminal dos ônibus que levam à cidades próximas e ao Rio de Janeiro..

Jack escolhe o terceiro banco redondo junto ao balcão; o bar esta vazio aquela hora da noite, apenas um homem, sentado numa das poucas mesas no fundo, encostadas na parede lateral.

 Não consegue identificar o rosto por trás do balcão, mas o sorriso é amistoso.:

- Você por aqui!

- Por aqui...?

- Não se lembra de mim...

- Deveria?

- Bar na Rua de Santana, quase esquina da Presidente Vargas... Você baixava lá com o pessoal da reportagem..,

Cabelo penteado, a barriga proeminente, Jack consegue imaginar pernas tomadas pelas varizes, o conforto de sandálias havaianas. O maço de cigarros fica ao alcance da mão.

- Desculpe; só me lembro do bar.

- Não tem importância! Vai de conhaque?

A busca por alguma ajuda no poço fundo da memória é em vão, mas agora tinha certeza de que estava diante de alguém que conhecia. No passado conhaque era sua primeira escolha.

- Não bebo mais conhaque. Tem uns vinte anos que não bebo conhaque; me traz uma vodca!

A dose é generosa. Jack fica quase feliz de repente! Olha o homem do outro lado do balcão. Mais ou menos cinquenta anos, cinquenta e cinco? Mas no rosto, nenhum traço familiar.

- Tinha você, o Monteiro, o Milton, o Hélio, o Paulo, um outro, que eu não me lembro o nome, bem mais velho, um escuro, que era motorista e não bebia...

- O mais velho era o Salles, estava se aposentando, o motorista era o Fernando...- Jack é assolado de repente por uma ternura nostálgica.

- Isso, Salles! Bebia uma e pegava o taxi! Que ano foi isso!

- sei lá, década de 60. O Salles morreu logo depois que saiu do jornal.

- Faz tempo, a gente ainda era moço.

- Mais de vinte anos.

Outra vodca, tão generosa quanto, aterrisa no balcão.

- Você tá trabalhando no O Friburguense, vi o nome numa reportagem! Como é que você veio parar em Friburgo?

- E você, como é que veio parar aqui na Serra? – Jack, prefere dar um tempo, evitando falar nos motivos que o tinham levado a trabalhar em Nova Friburgo, por menos da metade do que recebia no último jornal, no Rio. De onde tinha saído, depois de um acordo para evitar a chamada demissão por justa causa.

A passagem por três redações de jornais, de onde acabava saindo por conta da bebida, era a causa de ter aceito o trabalho na cidade, mas o dono do Maiorca não precisava saber.Pelo menos por enquanto.

O homem, que no passado distante servia conhaque num bar da Rua de Santana esquina com Avenida Presidente Vargas, pouco se importa com o recuo.

Talvez porque esteja ansioso para revelar sua história, a história de como havia chegado a Friburgo desde os encontros de todas as noites, nas mesmas condições, no bar do Centro do Rio.

Era uma história simples, normal, como tantas, nas vidas dos moradores dos subúrbios do Rio. Jack podia imaginar  uma infância sem maiores proezas do que crescer soltando pipa na rua, peladas num terreno baldio, ensino fundamental mal concluído numa escola pública porque precisava ajudar o pai.

- Briguei com meu pai quando tinha uns vinte e cinco, vinte e seis anos e saí pra montar meu próprio negócio.

 Inicialmente um restaurante, que não deu certo e acabou virando botequim.  Dois ou três anos depois a compra de um bar,melhorzinho, numa rua no bairro de Ramos, “coisa pequena também.” O casamento com a mulher, de família friburguense, que dava duro na limpeza do bar à noite, quando ele estava morto de cansaço.

Tudo bem, a família morando de aluguel na mesma rua até o dia do assalto. O dinheiro do caixa era pouco e nem foi levado, mas na saída, sem motivo aparente um freguês solitário levou dois tiros, um na cabeça outro no peito!

- O freguês morreu na hora, veio a PM, juntou uma multidão na porta, a mulher teve uma crise de nervos, “que não queria mais ficar ali! que tinham que ir embora e não se conformava! Que se ele não quisesse ia sozinha! Que como é que a gente pode viver num lugar em que se mata uma pessoa assim, na frente de todo mundo, às seis horas da noite!”

- Não foi um tempo ruim ali em Ramos. Abria o bar bem cedinho pro café do pessoal das fábricas e do comércio e estava até ganhando um dinheirinho.

Mas depois da morte no bar vieram as consequências: várias idas à delegacia, maltratado por escrivãos mal educados, querendo saber o que ele não sabia, um policial aparecendo à noite no bar, querendo bebida de graça.

E a mulher insistindo, falando muito, implicando muito, dizendo que ia embora, que ia embora com a criança!.

- Vendi o bar, que tinha um cara já de olho, vendi até bem e comprei esse aqui. Por causa da família dela; depois comprei o sobrado. Divido com uma cunhada dela que mora no quarto dos fundos e de vez em quando paga aluguel. Mais uma?

Jack faz um sinal que sim, quer mais uma.

A terceira vodca desce ainda mais suave, enquanto imagina uma história para justificar porque estava ali, trabalhando num pequeno jornal de Nova Friburgo, ganhando menos da metade do salário no Rio, morando num apartamento emprestado pelo dono do jornal, um antigo colega de redação há muito aposentado.

Pergunta se o banheiro é nos fundos.

O local é até limpo para padrões “botequim pé sujo.” Um limão galego cortado, faz as vezes de desodorante, mas   não há tábua na privada nem toalha de papel. Apenas um resto de sabão de côco que escorrega da lateral da pia para o chão.Não dá a mínima.Volta para o balcão com as mãos molhadas e um pano encardido sai do ombro do dono da bar para o providencial enxugamento.

- E você Jack como é que veio parar em Friburgo?  

A pergunta, uma insistência já esperada, não chega a incomodar. Até porque o homem por trás do balcão, contrariando dispositivos, regras e coisa e tal, tinha bebido uma cachaça “produzida na região”, e estava mais a vontade.

- Nada de importante, o problema é que eu nunca morri de amores pela chamada linha editorial de nenhum dos jornais onde trabalhei. Todos apoiadores da Ditadura Militar e eu não gostava da maneira como a direção...Bom, isso não tem nada a ver. O caso é que, de repente você escreve alguma coisa que a chefia de reportagem não gosta porque  está fora da linha do jornal. Você pensa que está fazendo o seu trabalho, mas a matéria ou o parágrafo dentro da matéria está fora da linha do jornal. Passa o tempo e um dia você, meio chapado, vai até a sala do editor-chefe e defende o teu ponto de vista. Insiste, porque a matéria  deu um trabalho enorme e acabou não sendo foi publicada, essas coisas...

- Você largou o emprego só por isso?

- Não larguei. Dias depois quando eu estava colocando o paletó nas costas da cadeira, o chefe da reportagem disse que eu, no dia seguinte, fosse direto para o Departamento de Pessoal, o RH de hoje.

Era só meia verdade. Não tinha sido o texto, ou o parágrafo, mas o cheiro do conhaque.

No episódio da primeira demissão Jack já estava cansado de saber que jornais refletem os interesses de seus anunciantes, e anunciantes são empresários conservadores, muitos deles naquela época, apoiadores da Ditadura Militar.

Gente que ele, Jack, podia detestar desde os tempos de faculdade, mas que faziam parte da vida, do seu dia a dia, do emprego, do motivo para sair de casa pela manhã.

Sabia também que sua posição, as vezes expressa em discussões meio sem sentido na redação, podia até ser  tolerada por editores e chefes de reportagem que, em geral gostavam das matérias produzidas por ele. E sabia também que, matérias que não estão de acordo com a linha editorial nunca chegam às páginas. Ou nunca vão ao ar, no caso das TVs.

- Isso foi no tempo da Ditadura e depois?

- A ditadura militar acabou, mas as coisas não mudaram tanto assim. A gente é mais ingênuo do que pensa aos  trinta anos. Alguns de nós, repórteres com experiência nos anos de chumbo, esperávamos, ou sonhávamos com uma nova postura do jornalismo diante da nova realidade. Pautas melhores, você, apurando e escrevendo sobre assuntos que a Ditadura não permitia, numa espécie de doa a quem doer, que era impossível claro...Desce mais uma aí parceiro!

- Isso te incomodava?

No fundo o papo era apenas para impressionar o respeitável público, sendo esse respeitável público apenas um dono de bar de quem ele nem o nome sabia. Sempre soube que o chamado jornalismo investigativo só funcionava dentro dos parâmetros da linha do jornal. A descoberta de um grande caso de corrupção passava primeiro pelo crivo da chefia e coisa e tal. Mas estava ali para impressionar o dono do bar, passando o tempo antes do sono.

- Isso te incomodava,mesmo?

- Claro, teve o caso de um chefe de polícia,ou secretário de segurança, não me lembro como o cara era chamado na época. O negócio é que o ocupante do cargo era um general e o general, segundo um policial que não gostava dele, tinha aceito um belo cheque pra deixar o jogo do bicho correr mais ou menos solto em todo o estado do Rio de Janeiro.  Já corria, é claro, mas o general tinha ameaçado proibir e coisa e tal, No embalo a coisa vazou e um deputado estadual se dispôs falar sobre o caso. Contar o que sabia sobre o cheque dos bicheiros...

Um homem de terno, perfumado, entre no bar, pede dois maços, mas o cigarro que ele quer acabou. Faz um gesto de aborrecimento, nem olha para Jack e volta para o carro, parado na porta do Maiorca, onde há um ponto de ônibus e é proibido parar.

- E então?.

- Ouvi o deputado, era um cara da oposição, mas muito bem informado sobre as merdas do governo. Mas pra seguir com a matéria, eu tinha que falar diretamente com o general. Então pedi ajuda ao chefe da reportagem, um cara de quem eu até gostava e que conhecia melhor do que eu os atalhos, os telefones de gabinete do homem.

Jack faz um gesto estudado, bebendo um gole profundo da vodca.

- O caso é que, mesmo sem antes falar comigo, ele levou o caso, ao editor-chefe do jornal.

Toca o telefone, o dono do Maiorca atende e parece irritado com o que ouve do outro da linha. Dá um “to ocupado agora” e bate o telefone.

- Porra, minha mulher querendo saber onde estão os papeis do inventário do meu pai. Eu e minha irmã estamos querendo vender o bar dele lá em Vila Valqueire! É uma loja nova, num prédio novo, deve valer alguma coisa. Eu te interrompi...

- Bom, fui chamado à sala do editor-chefe pra explicar que porra de pauta era aquela?! Quem tinha mandado fazer matéria sobre o chefe de polícia e coisa e tal. Minha reação, foi uma surpresa até pra mim mesmo. Defendi minha pauta, enfrentei o editor-chefe e acabei irritado, aos berros, a ponto do cara ameaçar chamar os seguranças. Dois minutos depois estava sentado no bar mais próximo enchendo a cara. Resumo da ópera: pedi demissão depois de sumir durante uma semana.  

Jack não conseguia lembrar da reação real ao esporro do chefe da reportagem mais de trinta anos depois. Até porque tinha invertido a ordem: primeiro o bar depois a aporrinhação. Mas lembrava de ter jogado as laudas no chão, ter dado meia volta e saído em dizer nada.

Nessa época já começava a se sentir desconfortável com o trabalho e, aos poucos ia odiando mais e mais a profissão.

Depois da segunda demissão, tinha trabalhado alguns meses como assessor de imprensa em uma autarquia do governo federal. Um emprego quase informal – recebia em dinheiro, na boca do caixa, o Banco do outro lado da rua.

Mas, ali a ociosidade era o caminho mais fácil para o botequim. Passava o dia lendo jornais, algumas revistas, procurando matérias que mencionassem alguma coisa relacionada com a autarquia. E descendo para beber a cada meia hora.

Um dia, antes de se despedir dos colegas, a caminho de casa, voltando do botequim, acabou caindo na calçada a poucos metros do prédio da autarquia.

Levado para o Hospital Souza Aguiar, no dia seguinte, curado por uma injeção de glicose, teve que ouvir o “sinto muito, não dá mais”, da boca do amigo repórter, responsável  por aquele emprego.

Então, depois de três ou quatro meses parado, o dinheiro no banco chegando ao fim, precisou recomeçar, perambulando pelas redações, procurando velhos amigos, tendo que dizer que a bebida era coisa do passado e coisa e tal.

- E em casa? A família?

- Morava sozinho nessa época, já estava há muito tempo separado da mulher, saia com uma garota dez anos mais nova, meio hippie. Que de vez em quando me levava uma nota, mas tudo bem.

A luz do Maiorca dá uma claudicada, ameaça apagar,o  dono do boteco xinga, diz que a concessionária é uma merda, que esses picos de luz queimam a geladeira, mas tudo volta ao normal.

O que é que estava falando, mesmo?

- Da garota que te levava uma nota.

- Sei... Marli, mas o que é que a Marli tem com a história?

- Bom, antes você disse que estava procurando emprego. De novo.

- É isso mesmo, num desses périplos, aceitei a mudança trabalhar na editoria de polícia. Achei bom. Pelo menos ali não havia espaço para conflitos pessoais. Na,polícia só tem espaço para coisas como desastre, incêndio, prisão de bandidos mais ou menos conhecidos da mídia, contrabando apreendido num navio com bandeira da Libéria, um ricaço, pego enchendo a mulher de porrada, ou funcionário público de alto escalão, bêbado dando tiros na rua. Desde então nunca mais parei de fazer polícia.

Música sertaneja irrompe no silêncio na Maiorca. O dono bar pega o celular em cima da geladeira; desliga.

- É pra me lembrar que essa é a hora de fechar o bar. Mas esquece, a conversa tá muito boa.

- Uma vez eu fiz um plantão meio estranho, na porta de um motel, para que o fotógrafo flagrasse um empresário conhecido saindo de lá com um rapaz. A matéria não foi publicada, mas a TV do grupo mostrou o fragrante no jornal da noite. Eu nunca entendi.

A vodca, quinta ou sexta fica diante dele no balcão. Jack sabe que o efeito agora é uma quase euforia que se sobrepõe ao cansaço e quer continuar falando.

- De resto o trabalho diário da reportagem policial é voltado para o que acontece em favelas, ou subúrbios mais pobres, onde gente inocente morre em trocas de tiros, onde a PM invade barracos para prender pequenos, traficantes, aviões do tráfico, frequentadores de bocas de fumo e vai por aí. As brigas entre desafetos pobres, nas portas dos botequins, um “pé inchado” esfaqueando outro, nunca vão para as páginas de jornais impressos ou televisivos.

Uma jovem mulher entra no bar, trazendo pela mão uma menina. A mãe, ou pelo menos é o que Jack supõe, pede dois cigarros a varejo, cata na bolsa algumas moedinhas, contadas uma a uma pelo dono do bar. Jack faz um sinal de adeus para a criança, ela responde com um sorriso encolhido. A mulher sorri também e ganha a calçada em direção aos pontos de ônibus da Praça Getúlio Vargas. 

- Um vez, faz tempo, agora já não sei se foi no primeiro oun no segundo jornal, eu quase fui mandado embora, por uma matéria que, essa sim, chegou nas bancas. Era uma visita pastoral do cardeal arcebispo do Rio de Janeiro. O texto saiu sem que nem o copy desk, o cara que dá um trato na matéria, antes dela ir pra página, corta,aumenta com dados da pesquisa e coisa e tal, e nem o editor, que em geral também dá uma olhada  percebessem. No dia seguinte o dono do jornal leu na página cinco que seu amigo,o cardeal arcebispo, tinha desprezado os moradores da favela da Mangueira e ido embora, sem saltar do carro, incomodado com o cheiro de uma vala negra... Deu merda, o porra do cardeal telefonou puto dentro das calças, no caso dentro da batina!

A luz do bar parece de novo tremer um pouco. Problemas com a concessionária de energia ou a vodca fazendo efeito?

- Se ninguém viu, quero dizer, os caras que estavam acima, não viram, Qual era a tua culpa?

- Foi por isso que a coisa ficou só numa advertência. O editor, era um cara bem jovem que gostava do que eu escrevia, confiava em mim, e por isso não leu o texto maldito. Era um garoto de família rica, formado na Pontífícia Universidade Católica, também não foi demitido, mas acabou mandado fazer o mesmo o mesmo serviço numa revista de modas do grupo...

O homem usando um paletó azul escuro encardido, uma havaiana no pé esquerdo, levando alguma coisa embrulhada num pano chega no balcão. O dono do bar serve uma cachaça o homem bebe de uma vez começa a catar moedas no bolso da calça. Paga e sai

 - Porque a história do cardeal provocou quase encrenca a tua vida ? Não era verdade  o que você escreveu? Vai mais uma? Você ainda é aquele cara que nada te derruba?

 - A verdade é que jornalismo não importa muito nessas horas  . O que importa é a política do jornal, ou a maneira como a notícia sai. Ou não sai. Às vezes a política do jornal, o interesse dos donos do jornal determinam o que, vai ou não para as páginas. E olha só: não sou mais aquele cara que nenhuma bebida derruba, mas estou morando aqui perto; não preciso de um táxi pra voltar pra casa.

O mendigo retorna pede outra cachaça, mas o dono do bar diz que ele tem que primeiro mostrar o dinheiro. O homem mexe nos bolso, mas o que sai é uma moeda que não dá pra pagar a bebida.

- Bota a cachaça dele na minha conta e desce a penúltima, por favor.

A história real, que Jack ia deixando de lado ali, naquele bar vazio de Nova Friburgo é que há muito tempo, não suportava  o dia a dia do jornalismo, a tensão, o interlocutor que promete contar tudo, mas que desaparece a mando do advogado, a matéria que cai porque outra de maior interesse entrou na página, a pauta que não foi cumprida porque o carro de reportagem estava com outro repórter que se atrasou e ele não conseguiu um táxi, às seis horas da tarde no centro, para checar porque  o gás da distribuídos não estava chegando aos clientes de Laranjeiras.

Não tinha mais a menor vontade a menor paciência, mas não saberia fazer outra coisa  Já não ligava mais, para o conservadorismo da linha dos jornais e nem para editoriais conservadores, que acabava lendo, pela manhã, para ver se suas matérias haviam sido publicadas.

Em um momento de quase desespero, o dinheiro da indenização acabando, o crédito cortado na maior parte dos bares próximos de casa, tinha encontrado um ex-colega de redação. Talvez a aparência, seu estado geral, quando se olhava no espelho pela manhã era péssimo, tenha despertado a velha solidariedade do ex-repórter, agora proprietário de o Friburguense, que tinha feito o convite para trabalhar naquela cidade.

- O salário é metade do que você recebia, mas a vida no interior é mais barata, você vai ver. E pode deixar teu carro na estacionamento de meu prédio, eu tenho direito a duas vagas.

A voz ainda, soava no ouvido enquanto subia a serra, o tanque ameaçando secar no meio do caminho.

E agora, entrando pela primeira vez no bar Maiorca, bebendo com uma parte do passado, não tinha ilusões sobre como aquele capítulo da vida ia terminar.

Provavelmente como os anteriores.

O homem sentado no fundo, faz sinal, e a conversa é interrompida. O homem resmunga alguma coisa. O dono do bar, volta.

- É um cara legal, mas fica bêbado toda noite e, se tomar mais uma não vai conseguir pegar o ônibus... Você não se lembra, mas o meu nome é Silas.

 Bêbados e garçons, donos de bares & assemelhados costumam se entender sem necessidade de palavras e até nomes que interrompam narrativas: um copo lavado, com mais uma dose de vodca é colocado diante de Jack.

- Você cobriu aquele caso da morte da Luz de Fuego?

 - Faz muito tempo, né? Eu participei,a história rendeu várias matérias, Ela foi morta numa ilha no meio da Baia de Guanabara, o assassino...

 

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