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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

 

A morte na praia   

                                

                            Ficou olhando, divertido, Rita jogar a bolsa e os óculos escuros no balcão do quiosque, cruzar os braços e virar de costas. Desde a saída do jornal, no centro do Rio, ela, a estagiária rebelde, ou coisa do gênero, tinha se limitado a olhar pela janela do carro, sem trocar uma palavra com ele ou mesmo com Silas, o fotógrafo, sentado no banco do carona.

                            As únicas coisas ditas no trajeto entre a redação e a praia tinham sido para o motorista, respondendo a uma pergunta bem humorada sobre a matéria do dia anterior. Matéria que não tinha dado certo. A pessoa que deveria ser entrevistada, segundo ela, não apareceu e nem deixou recado.

                               A irritação tinha sido imediatamente percebida pelo garoto do quiosque, que estava servindo a primeira lata de cerveja. Um minuto depois de dar as costas, ela se volta. Aparentemente ia fazer uma pergunta, mas deve ter desistido e resolveu buscar o maço de cigarros da bolsa.

                               Ali, naquela praia deserta, numa quarta-feira de julho, sem sol, a jovem, talvez futura repórter, tinha ficado sozinha na primeira meia hora, até resolver sair do carro e procurar abrigo no quiosque.

                                      A pergunta foi adiada, talvez à espera de alguma palavra, algum sinal da parte dele. Mas preferiu ficar calado. Sabe que ela está irritada porque, naquela manhã, fora informada de que deveria ir com a equipe da reportagem de polícia a um condomínio, no litoral, onde um homicídio produzira a manchete da página, dois dias antes, e estava tendo razoável cobertura de todos os jornais do Rio. Apesar de, até aquele momento, nenhum outro carro de reportagem ter aparecido na praia.

                                       Acompanhar um repórter veterano na cobertura de um crime, devia ser mesmo um castigo para quem acabara de sair da faculdade e sonhava com um estrelato na imprensa.

                                      Sorri antes do primeiro gole. O pontapé inicial para quebrar o gelo.      

                                       - Talvez você nunca tenha visto alguém beber as nove e meia da manhã.

                                       - Não, acho que não. Mas eu não me importo.

                                       - É um péssimo hábito.

                                      

                                       A pretensão de se explicar, de dizer que aquilo era comum entre os repórteres do seu tempo, apenas meia verdade, mais folclore do que propriamente realidade, é demolida por uma sensação de inutilidade.

                                       Mas o efeito da cerveja, somado a todo o uísque barato da noite passada, faz com que embarque na viagem rápida para a euforia e, de repente, quase sente pena da menina diante dele, frágil, a saia comprida, a blusa clara e um colete de crochê bege, braços finos de pelos ouriçados pela temperatura da manhã.

                                      - Posso fazer alguma coisa para você relaxar? 

-                                      - Pode me dar uma informação: quanto tempo, você que é tão experiente, acha que a gente vai ficar por aqui? 

                                   - Quem disse que eu sou “tão experiente”?

                                   - Ouvi por aí.

                                   - Escuta, qual é o problema?

 

                                   Ela baixa os olhos pela primeira vez desde que tinham se encontrado naquela manhã. E olha, sem ver, a areia quase branca, o mar chumbo acinzentado, naquela praia deserta, com mansões de muros infinitos, portões de aço, guaritas internas e cães, muitos cães que exibiam os dentes, dominados por guardas de segurança com um pouco de escárnio nos sorrisos, deixando claro que a qualquer momento podiam soltar as guias e deixar que as feras estraçalhassem os intrusos.   

                                      - Mandaram que eu colasse em você.

                                      - Pra quê?

                                      - Sei lá, não tenho a menor ideia!

                                      - Eu tenho; querem que você veja o horror de perto.

                                      - Isso é piada?                                     

                                      Não era. Rita estava há poucas semanas no jornal e, segundo o editor de cidade, ia ser uma boa repórter. Mas a autossuficiência, a defesa meio alucinada de alguns pontos de vista tinham produzido estragos no relacionamento com quem estava acima dela.

                                       E irritação. Então, o chefe da reportagem deve ter achado que era melhor ela dar um tempo em áreas menos nobres, “pra ganhar um pouco de humildade, talvez”.

                                      Tinha sido avisado. Mas, ao contrário da raiva, exibida no trajeto, Rita parecia um pouco acuada naquele instante, abrindo a bolsa e tirando lá de dentro o maço de Hollywood e o isqueiro.

                                     O fotógrafo tenta falar com a redação pelo rádio do carro, mas não consegue, porque estão fora da área de cobertura da antena. O motorista brinca com o vira-lata preto e branco que apareceu por ali, depois que os dois carros da polícia entraram no casarão. Os portões foram fechados e os cães da mansão pararam de latir. Olha o mar, a curva da terra logo ali, enquanto a cerveja, quase congelada porque passou a noite no freezer, desliza pela garganta.

                                     O rosto de Rita é bonito, olhos negros grandes, amendoados. Ela volta a colocar os óculos escuros, apesar do dia nublado e ele vê, nas lentes, que a praia parece não ter fim. O garoto, por trás do balcão do quiosque quer saber se ele quer mais uma. Faz um sinal que sim com a cabeça.

-                                    - Acho que sei por que você está irritada. E acho também que tem razão. Portanto, se você quiser voltar pro carro e esperar, eu não me importo. Não precisa colar comigo, como mandaram. Aliás, o que vamos ver lá dentro não vai ser nada agradável.

-                                     - E o que é que nós vamos ver lá dentro?

-                                     - O corpo de um homem que morreu há uma semana, dez dias, não se sabe muito bem. Uma visão nem um pouco agradável.

-                                     - Você gosta desse trabalho?

                                     - Não me importo.

-                                     - Como não se importa!? Não gostaria de trabalhar em outra editoria... cidade, economia...?

                                      - Já trabalhei, não dou a mínima.

                                      - Entendo. Ou melhor, não entendo. Passar o tempo todo acompanhando a violência, crimes, desastres, desgraças... Coisas...

                                      -... sem importância.

                                      - Não foi isso que eu quis dizer.

                                      - Foi, mas eu não me importo. E até concordo que são coisas sem a mínima importância.

                                  

                                       O vira-lata cansou das brincadeiras com o motorista e veio para o quiosque. Rita se abaixa. O cachorro se anima e começa a pular. Ela fica de pé, e pede que ele não pule, que está sujando a sua roupa! Mas não adianta. O garoto então sai detrás do balcão e dá um chute no cachorro, que se afasta alguns metros. Rita reclama que o pontapé poderia “ter machucado o bicho”.

                                        - Trabalhar na área policial é mais cômodo?

                                        - Nem sempre. Às vezes as coisas se complicam, você tem que ficar no local por mais tempo, essas coisas... Semana passada fiquei três dias em Barbacena.

-                                        - Sei você não quer falar sobre isso.

                                        - Não, não me importo. O problema não é exatamente trabalhar na área de polícia ou qualquer outra. No fim é tudo a mesma coisa.

-                                         - Eu não concordo. Eu não gostaria de trabalhar nessa área. Inclusive, porque não se aprende nada, não se evolui profissionalmente.

-                                         

-                                            Ele mesmo achava isso no passado. Tinha começado fazendo polícia porque esse era o caminho normal para quem chegava às redações sem curso de jornalismo. O outro caminho era começar pela editoria de esportes, coisa que não entendia.

-       

-                                              Tinha começado na polícia, passado pela editoria de cidade e retornado, porque rapidamente descobrira que não tinha nada a ver com o jornalismo. Que não se importava. Tempos atrás até assumira a chefia de reportagem, mas o cargo só trouxe problemas. Não com os repórteres, mas com a direção de jornalismo.

-       

-                                                Voltara a ser repórter agora chamado de “especial”, fazendo matérias Brasil afora. Mas acabara mudando de jornal.  A pouca motivação em uma assessoria de imprensa, onde o salário, aliás, era bem melhor, provocou um razoável aumento no nível das bebedeiras diárias: uma semana sem aparecer no Instituto Nacional do Cinema passou a ser uma prática meio comum.

-                                               Acabou voltando para o jornal onde tinha começado na profissão, um pouco por inércia, um pouco porque era conhecido e tinha um texto considerado bom. 

-                                           - Para dizer a verdade eu acho o jornalismo uma profissão de merda. Tanto faz polícia ou economia, ou esportes...

                                   

                                            Rita olha para ele, espantada. Vai responder, mas o vira-lata está de volta. Chega, desta vez mais calmo, abanando o rabo, mas sem pular. Ela se abaixa volta a acariciar o focinho magro, quase totalmente preto em contraste com o corpo, de pelos brancos.

-                                           - Desculpe, eu estou sendo meio grosseiro. Peço desculpas.               

-                                           

-                                           A terceira lata de cerveja custa a descer. Na verdade está apenas querendo se reidratar, depois da noite bebendo sozinho, num bar perto de casa. Vai jogar a lata pela metade na areia, mas recua. Pergunta ao garoto onde fica o lixo.

-                                             - É, mas também pode ser que eu seja cético demais, desiludido demais ou talvez cínico demais... Aliás, eu sou um péssimo exemplo. Além disso, boa parte em que eu trabalhei como repórter foi no tempo da censura.

                                             

                                             Porteira aberta para um tema fácil de discutir.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

                                             - Naquela época todo mundo sonhava com o fim da ditadura, achando que a derrubada dos milicos ia produzir um jornalismo, abre aspas, imparcial, limpo, criativo e outros adjetivos, fecha aspas.

 

                                         Fica feliz porque conduziu a conversa para uma de suas teorias preferidas. E repetida tantas vezes que o terreno fica seguro e os riscos de se perder, sob o efeito da bebida, são bem menores. Além disso, parece que consegue a atenção de Rita.

                                    - E na sua opinião...?

                                    - Para ser sincero, eu acho que a longo prazo a coisa não melhorou muito. Ou seja, eu quase tenho saudades do tempo em que os censores estavam nas redações. Pelo menos a gente podia sonhar com um jornalismo... que é, visto sob a ótica de hoje, uma utopia. Nós íamos poder escrever sobre tudo, denunciar tudo, e outras babaquices do gênero.

                                     - E...?

-                                      Sabe que aquilo é puro exibicionismo. Há muito tempo não acredita na sua própria retórica. Uma retórica olhada com desconfiança pelos colegas de redação e que, com o tempo acabou se tornando ridícula. Com o tempo ele mesmo tinha deixado de acreditar totalmente no que dizia. Ou pior que isso, não ligava a mínima. Mas ali, naquele momento, uma espécie de euforia alavancada pela cerveja, quer impressionar a garota espevitada ali na sua frente. A saída é não fugir do roteiro conhecido.

-                                     - Ninguém sentiu isso do dia pra noite. A coisa veio aos poucos e pra muita gente nem veio.

-                                      - Como assim?

-                                      - Bom, logo no começo o pessoal achava que tinha que ir devagar com o andor. As matérias sobre cemitérios clandestinos, sobre a guerrilha na região do Araguaia, por exemplo, faziam os donos de jornais coçarem a cabeça e só foram para as páginas alguns anos depois...

                                        - Mas você começou dizendo que sentia saudades dos censores nas redações...

                                         - É claro que isso é uma besteira. E das grandes. Em primeiro lugar, o jornalismo anterior à ditadura também tinha suas limitações que, aliás, estão completamente esquecidas. E acreditava-se que a derrubada dos generais produziria um jornalismo novo, totalmente independente. Independente do ponto de vista do repórter, bem entendido.    

                                      - Mas...?

-                                      - Pra começar, naquele tempo, nas redações... todo mundo estava contra a ditadura militar. Quando a censura acabou é que nós começamos a nos distinguir: direitistas boa gente, esquerdistas de vários matizes, comunistas, liberais, ressentidos, patrões e empregados e vai por aí.

-                                           

                                     Rita tira o maço da bolsa, mas se decepciona: maço vazio. Olha para o garoto e pergunta se tem cigarros no quiosque. O garoto informa que só a varejo. Ela compra dois, paga com moedinhas que vão aparecendo no fundo da bolsa. Nesse momento, sente um pouco de pena.

                                    Talvez ela não seja tão petulante, a palavra petulante tinha sido pronunciada pelo subchefe de reportagem que, com certeza, não tivera a mínima paciência. Faz um esforço; sabe que a sensibilidade que aflora de repente é só uma resposta ao efeito da bebida.

                                  Rita tem dificuldade em acender o cigarro. Ajuda. Vai com as mãos em concha e, por um breve instante, os dois se tocam.

-                                       - Então?

                                       - Então nada, terminei o discurso.

                                       - Se eu entendi, os censores foram embora, mas na sua opinião as coisas não melhoraram nada!                  

                                        Fica de repente arrependido de ter iniciado aquela conversa. Até porque Rita retomou o arzinho “petulante” e com certeza vai querer contestar tudo o que ele disser. Mas é um assunto que já discutiu muito. Então, basta repetir os argumentos de outras conversas.

                                        - Acho que a tecnologia aumentou os custos e fez com que os veículos, dos maiores e até os de porte médio, acabassem prisioneiros dos grandes anunciantes, o governo, as transnacionais... Isso criou, na minha opinião, uma forma muito mais sutil e perniciosa de controle sobre corações e mentes. Que se institucionalizou e, é invisível para o leitor, telespectador, ouvinte, com um nível médio ou pequeno de informação.

                                          - Isso não é um pouco de paranoia?

-                                          - Talvez, mas o telespectador, o leitor, o ouvinte com um nível baixo de informação, não entende noventa por cento do que é mostrado nos jornais da noite na TV, não lê jornal, a não ser eventualmente e com dificuldade. A maioria se limita às páginas de polícia, futebol, notícias sobre novelas... Assim, ele nem percebe que está sendo enganado e que o que a mídia veicula é o que interessa aos anunciantes. Sei que essa é uma opinião que pode parecer estranha, mas...

                                 

                                        Rita ficou pensativa por alguns instantes. Estava tentada a concordar, mas seu interlocutor, a barba crescida, o paletó amassado, a gravata vagabunda, velha, não é o protótipo de alguém que tenha coisas sérias a dizer. Mas ele insiste.

 

                                        - O problema é que hoje as limitações do jornalismo não dependem mais de um censor idiota com primeiro grau incompleto, inseguro, querendo desesperadamente subir na vida e por isso mesmo muito perigoso. Hoje essas limitações são impostas por um editor educado, culto, sutil, perfeitamente antenado com a linha do jornal, que sabe a maneira, abre aspas, correta, fecha aspas, de como a notícia deve sair, seu formato, quem deve ser entrevistado, e quem não deve, o que vai no lead da matéria e, o que deve ser sutilmente omitido.

                                   - Olha, desculpe, mas eu acho que você está exagerando um pouco.

                             

                             Ligeira irritação na resposta. Ele sorri. É, talvez esteja exagerando um pouco. Mas insiste, porque agora está se divertindo.

                                  - Veja, em noventa por cento dos casos o repórter já sai da redação com uma pauta feita. E a pauta que já dá as dicas como, por exemplo, quem deve ser entrevistado. Muitas vezes o repórter recebe sugestões de perguntas que devem ser feitas... Isso já deve, inclusive, ter acontecido com você. E vai por aí...                                                        

                                   Mas perde o pique. Ouve o barulho do vento que começa a levantar a areia fina. O garoto do quiosque que estivera prestando atenção, sem entender, vira o rosto. Parada para mais um gole. Pede uma cachaça. Nuvens brancas e esparsas passando por sobre um azul de verdade. Sente que a depressão pode vir a ser a sombra negra, grudada nele pelo sol da manhã. De repente, perdeu a vontade de continuar falando.

                                     Duas horas mais tarde, já a caminho do jornal, Rita aceitou tomar um conhaque com ele. Ainda estava branca e suava frio, depois do quase desmaio. No restaurante à beira da estrada, ao lado do posto onde o carro estava sendo abastecido, a repórter tinha dito que o cheiro e não a visão do cadáver inchado provocara nela aquela “surpreendente queda de pressão”.   

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