A morte na praia
Ficou olhando,
divertido, Rita jogar a bolsa e os óculos escuros no balcão do quiosque, cruzar
os braços e virar de costas. Desde a saída do jornal, no centro do Rio, ela, a
estagiária rebelde, ou coisa do gênero, tinha se limitado a olhar pela janela
do carro, sem trocar uma palavra com ele ou mesmo com Silas, o fotógrafo,
sentado no banco do carona.
As únicas coisas
ditas no trajeto entre a redação e a praia tinham sido para o motorista,
respondendo a uma pergunta bem humorada sobre a matéria do dia anterior.
Matéria que não tinha dado certo. A pessoa que deveria ser entrevistada,
segundo ela, não apareceu e nem deixou recado.
A irritação
tinha sido imediatamente percebida pelo garoto do quiosque, que estava servindo
a primeira lata de cerveja. Um minuto depois de dar as costas, ela se volta.
Aparentemente ia fazer uma pergunta, mas deve ter desistido e resolveu buscar o
maço de cigarros da bolsa.
Ali, naquela
praia deserta, numa quarta-feira de julho, sem sol, a jovem, talvez futura
repórter, tinha ficado sozinha na primeira meia hora, até resolver sair do
carro e procurar abrigo no quiosque.
A pergunta foi adiada, talvez à
espera de alguma palavra, algum sinal da parte dele. Mas preferiu ficar calado.
Sabe que ela está irritada porque, naquela manhã, fora informada de que deveria
ir com a equipe da reportagem de polícia a um condomínio, no litoral, onde um
homicídio produzira a manchete da página, dois dias antes, e estava tendo
razoável cobertura de todos os jornais do Rio. Apesar de, até aquele momento,
nenhum outro carro de reportagem ter aparecido na praia.
Acompanhar um repórter
veterano na cobertura de um crime, devia ser mesmo um castigo para quem acabara
de sair da faculdade e sonhava com um estrelato na imprensa.
Sorri
antes do primeiro gole. O pontapé inicial para quebrar o gelo.
- Talvez
você nunca tenha visto alguém beber as nove e meia da manhã.
- Não,
acho que não. Mas eu não me importo.
- É um péssimo hábito.
A
pretensão de se explicar, de dizer que aquilo era comum entre os repórteres do
seu tempo, apenas meia verdade, mais folclore do que propriamente realidade, é
demolida por uma sensação de inutilidade.
Mas o efeito da
cerveja, somado a todo o uísque barato da noite passada, faz com que embarque
na viagem rápida para a euforia e, de repente, quase sente pena da menina
diante dele, frágil, a saia comprida, a blusa clara e um colete de crochê bege,
braços finos de pelos ouriçados pela temperatura da manhã.
- Posso
fazer alguma coisa para você relaxar?
-
- Pode me dar
uma informação: quanto tempo, você que é tão experiente, acha que a gente vai
ficar por aqui?
- Quem disse
que eu sou “tão experiente”?
- Ouvi por
aí.
- Escuta,
qual é o problema?
Ela baixa os
olhos pela primeira vez desde que tinham se encontrado naquela manhã. E olha,
sem ver, a areia quase branca, o mar chumbo acinzentado, naquela praia deserta,
com mansões de muros infinitos, portões de aço, guaritas internas e cães,
muitos cães que exibiam os dentes, dominados por guardas de segurança com um
pouco de escárnio nos sorrisos, deixando claro que a qualquer momento podiam
soltar as guias e deixar que as feras estraçalhassem os intrusos.
-
Mandaram que eu colasse em você.
- Pra
quê?
- Sei lá,
não tenho a menor ideia!
- Eu
tenho; querem que você veja o horror de perto.
- Isso é
piada?
Não era.
Rita estava há poucas semanas no jornal e, segundo o editor de cidade, ia ser
uma boa repórter. Mas a autossuficiência, a defesa meio alucinada de alguns
pontos de vista tinham produzido estragos no relacionamento com quem estava
acima dela.
E irritação. Então, o chefe da
reportagem deve ter achado que era melhor ela dar um tempo em áreas menos
nobres, “pra ganhar um pouco de humildade, talvez”.
Tinha
sido avisado. Mas, ao contrário da raiva, exibida no trajeto, Rita parecia um
pouco acuada naquele instante, abrindo a bolsa e tirando lá de dentro o maço de
Hollywood e o isqueiro.
O
fotógrafo tenta falar com a redação pelo rádio do carro, mas não consegue, porque
estão fora da área de cobertura da antena. O motorista brinca com o vira-lata
preto e branco que apareceu por ali, depois que os dois carros da polícia
entraram no casarão. Os portões foram fechados e os cães da mansão pararam de
latir. Olha o mar, a curva da terra logo ali, enquanto a cerveja, quase
congelada porque passou a noite no freezer, desliza pela garganta.
O rosto de
Rita é bonito, olhos negros grandes, amendoados. Ela volta a colocar os óculos
escuros, apesar do dia nublado e ele vê, nas lentes, que a praia parece não ter
fim. O garoto, por trás do balcão do quiosque quer saber se ele quer mais uma.
Faz um sinal que sim com a cabeça.
-
- Acho que sei por
que você está irritada. E acho também que tem razão. Portanto, se você quiser
voltar pro carro e esperar, eu não me importo. Não precisa colar comigo, como
mandaram. Aliás, o que vamos ver lá dentro não vai ser nada agradável.
-
- E o que é que
nós vamos ver lá dentro?
-
- O corpo de um
homem que morreu há uma semana, dez dias, não se sabe muito bem. Uma visão nem
um pouco agradável.
-
- Você gosta
desse trabalho?
- Não me importo.
-
- Como não se
importa!? Não gostaria de trabalhar em outra editoria... cidade, economia...?
- Já
trabalhei, não dou a mínima.
- Entendo.
Ou melhor, não entendo. Passar o tempo todo acompanhando a violência, crimes,
desastres, desgraças... Coisas...
-... sem
importância.
- Não foi isso que eu quis dizer.
- Foi,
mas eu não me importo. E até concordo que são coisas sem a mínima importância.
O
vira-lata cansou das brincadeiras com o motorista e veio para o quiosque. Rita
se abaixa. O cachorro se anima e começa a pular. Ela fica de pé, e pede que ele
não pule, que está sujando a sua roupa! Mas não adianta. O garoto então sai
detrás do balcão e dá um chute no cachorro, que se afasta alguns metros. Rita
reclama que o pontapé poderia “ter machucado o bicho”.
-
Trabalhar na área policial é mais cômodo?
- Nem
sempre. Às vezes as coisas se complicam, você tem que ficar no local por mais
tempo, essas coisas... Semana passada fiquei três dias em Barbacena.
-
- Sei você
não quer falar sobre isso.
- Não,
não me importo. O problema não é exatamente trabalhar na área de polícia ou
qualquer outra. No fim é tudo a mesma coisa.
-
- Eu não
concordo. Eu não gostaria de trabalhar nessa área. Inclusive, porque não se
aprende nada, não se evolui profissionalmente.
-
-
Ele mesmo
achava isso no passado. Tinha começado fazendo polícia porque esse era o
caminho normal para quem chegava às redações sem curso de jornalismo. O outro
caminho era começar pela editoria de esportes, coisa que não entendia.
-
-
Tinha começado na polícia,
passado pela editoria de cidade e retornado, porque rapidamente descobrira que
não tinha nada a ver com o jornalismo. Que não se importava. Tempos atrás até assumira
a chefia de reportagem, mas o cargo só trouxe problemas. Não com os repórteres,
mas com a direção de jornalismo.
-
-
Voltara a ser repórter agora chamado de “especial”,
fazendo matérias Brasil afora. Mas acabara mudando de jornal. A pouca motivação em uma assessoria de
imprensa, onde o salário, aliás, era bem melhor, provocou um razoável aumento
no nível das bebedeiras diárias: uma semana sem aparecer no Instituto Nacional
do Cinema passou a ser uma prática meio comum.
-
Acabou voltando para o jornal onde tinha
começado na profissão, um pouco por inércia, um pouco porque era conhecido e
tinha um texto considerado bom.
-
- Para
dizer a verdade eu acho o jornalismo uma profissão de merda. Tanto faz polícia
ou economia, ou esportes...
Rita olha para ele, espantada. Vai responder, mas o vira-lata está de
volta. Chega, desta vez mais calmo, abanando o rabo, mas sem pular. Ela se
abaixa volta a acariciar o focinho magro, quase totalmente preto em contraste
com o corpo, de pelos brancos.
-
-
Desculpe, eu estou sendo meio grosseiro. Peço desculpas.
-
-
A terceira
lata de cerveja custa a descer. Na verdade está apenas querendo se reidratar,
depois da noite bebendo sozinho, num bar perto de casa. Vai jogar a lata pela
metade na areia, mas recua. Pergunta ao garoto onde fica o lixo.
-
- É, mas
também pode ser que eu seja cético demais, desiludido demais ou talvez cínico
demais... Aliás, eu sou um péssimo exemplo. Além disso, boa parte em que eu
trabalhei como repórter foi no tempo da censura.
Porteira aberta para um tema fácil de discutir.
-
Naquela época todo mundo sonhava com o fim da ditadura, achando que a derrubada
dos milicos ia produzir um jornalismo, abre aspas, imparcial, limpo, criativo e
outros adjetivos, fecha aspas.
Fica
feliz porque conduziu a conversa para uma de suas teorias preferidas. E
repetida tantas vezes que o terreno fica seguro e os riscos de se perder, sob o
efeito da bebida, são bem menores. Além disso, parece que consegue a atenção de
Rita.
- E na sua
opinião...?
- Para ser
sincero, eu acho que a longo prazo a coisa não melhorou muito. Ou seja, eu
quase tenho saudades do tempo em que os censores estavam nas redações. Pelo
menos a gente podia sonhar com um jornalismo... que é, visto sob a ótica de
hoje, uma utopia. Nós íamos poder escrever sobre tudo, denunciar tudo, e outras
babaquices do gênero.
- E...?
-
Sabe que aquilo
é puro exibicionismo. Há muito tempo não acredita na sua própria retórica. Uma
retórica olhada com desconfiança pelos colegas de redação e que, com o tempo
acabou se tornando ridícula. Com o tempo ele mesmo tinha deixado de acreditar
totalmente no que dizia. Ou pior que isso, não ligava a mínima. Mas ali,
naquele momento, uma espécie de euforia alavancada pela cerveja, quer
impressionar a garota espevitada ali na sua frente. A saída é não fugir do
roteiro conhecido.
-
- Ninguém sentiu
isso do dia pra noite. A coisa veio aos poucos e pra muita gente nem veio.
-
- Como assim?
-
- Bom, logo no
começo o pessoal achava que tinha que ir devagar com o andor. As matérias sobre
cemitérios clandestinos, sobre a guerrilha na região do Araguaia, por exemplo, faziam
os donos de jornais coçarem a cabeça e só foram para as páginas alguns anos
depois...
- Mas
você começou dizendo que sentia saudades dos censores nas redações...
- É claro
que isso é uma besteira. E das grandes. Em primeiro lugar, o jornalismo
anterior à ditadura também tinha suas limitações que, aliás, estão
completamente esquecidas. E acreditava-se que a derrubada dos generais
produziria um jornalismo novo, totalmente independente. Independente do ponto
de vista do repórter, bem entendido.
- Mas...?
-
- Pra começar,
naquele tempo, nas redações... todo mundo estava contra a ditadura militar.
Quando a censura acabou é que nós começamos a nos distinguir: direitistas boa
gente, esquerdistas de vários matizes, comunistas, liberais, ressentidos,
patrões e empregados e vai por aí.
-
Rita tira
o maço da bolsa, mas se decepciona: maço vazio. Olha para o garoto e pergunta
se tem cigarros no quiosque. O garoto informa que só a varejo. Ela compra dois,
paga com moedinhas que vão aparecendo no fundo da bolsa. Nesse momento, sente
um pouco de pena.
Talvez ela
não seja tão petulante, a palavra petulante tinha sido pronunciada pelo
subchefe de reportagem que, com certeza, não tivera a mínima paciência. Faz um
esforço; sabe que a sensibilidade que aflora de repente é só uma resposta ao
efeito da bebida.
Rita tem
dificuldade em acender o cigarro. Ajuda. Vai com as mãos em concha e, por um
breve instante, os dois se tocam.
-
- Então?
- Então nada,
terminei o discurso.
- Se eu
entendi, os censores foram embora, mas na sua opinião as coisas não melhoraram
nada!
Fica de
repente arrependido de ter iniciado aquela conversa. Até porque Rita retomou o
arzinho “petulante” e com certeza vai querer contestar tudo o que ele disser.
Mas é um assunto que já discutiu muito. Então, basta repetir os argumentos de
outras conversas.
- Acho
que a tecnologia aumentou os custos e fez com que os veículos, dos maiores e
até os de porte médio, acabassem prisioneiros dos grandes anunciantes, o
governo, as transnacionais... Isso criou, na minha opinião, uma forma muito
mais sutil e perniciosa de controle sobre corações e mentes. Que se
institucionalizou e, é invisível para o leitor, telespectador, ouvinte, com um
nível médio ou pequeno de informação.
- Isso não é
um pouco de paranoia?
-
- Talvez,
mas o telespectador, o leitor, o ouvinte com um nível baixo de informação, não
entende noventa por cento do que é mostrado nos jornais da noite na TV, não lê
jornal, a não ser eventualmente e com dificuldade. A maioria se limita às
páginas de polícia, futebol, notícias sobre novelas... Assim, ele nem percebe
que está sendo enganado e que o que a mídia veicula é o que interessa aos
anunciantes. Sei que essa é uma opinião que pode parecer estranha, mas...
Rita
ficou pensativa por alguns instantes. Estava tentada a concordar, mas seu
interlocutor, a barba crescida, o paletó amassado, a gravata vagabunda, velha,
não é o protótipo de alguém que tenha coisas sérias a dizer. Mas ele insiste.
- O
problema é que hoje as limitações do jornalismo não dependem mais de um censor
idiota com primeiro grau incompleto, inseguro, querendo desesperadamente subir
na vida e por isso mesmo muito perigoso. Hoje essas limitações são impostas por
um editor educado, culto, sutil, perfeitamente antenado com a linha do jornal,
que sabe a maneira, abre aspas, correta, fecha aspas, de como a notícia deve
sair, seu formato, quem deve ser entrevistado, e quem não deve, o que vai no
lead da matéria e, o que deve ser sutilmente omitido.
- Olha,
desculpe, mas eu acho que você está exagerando um pouco.
Ligeira irritação
na resposta. Ele sorri. É, talvez esteja exagerando um pouco. Mas insiste,
porque agora está se divertindo.
- Veja, em
noventa por cento dos casos o repórter já sai da redação com uma pauta feita. E
a pauta que já dá as dicas como, por exemplo, quem deve ser entrevistado.
Muitas vezes o repórter recebe sugestões de perguntas que devem ser feitas...
Isso já deve, inclusive, ter acontecido com você. E vai por aí...
Mas perde o
pique. Ouve o barulho do vento que começa a levantar a areia fina. O garoto do quiosque
que estivera prestando atenção, sem entender, vira o rosto. Parada para mais um
gole. Pede uma cachaça. Nuvens brancas e esparsas passando por sobre um azul de
verdade. Sente que a depressão pode vir a ser a sombra negra, grudada nele pelo
sol da manhã. De repente, perdeu a vontade de continuar falando.
Duas horas
mais tarde, já a caminho do jornal, Rita aceitou tomar um conhaque com ele.
Ainda estava branca e suava frio, depois do quase desmaio. No restaurante à
beira da estrada, ao lado do posto onde o carro estava sendo abastecido, a
repórter tinha dito que o cheiro e não a visão do cadáver inchado provocara
nela aquela “surpreendente queda de pressão”.
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