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Às vezes acontece.
O chefe supremo do jornalismo, a autoridade máxima da redação, o
super editor, o Semideus do pedaço, o queridinho do Doutor Fulano, ou coisa
que o valha, está a ponto de tomar um furo eletrônico. (Furo é quando você
não dá uma notícia importante que já saiu ou vai sair na concorrência. Você
bobeou, bestou e coisa e tal...)
A rapaziada, um ou dois degraus abaixo, adverte, mas Pedrosa, o filho dileto
dos Deuses, acha que tem uma poderosa carta na manga. No caso, um contato
próximo, de absoluta confiança - porque tem que ser de absoluta confiança! -
que pode mudar a maré montante. Segundo o contato, o governador em exercício
não vai renunciar. Embora todo mundo ache que vai.
Todo mundo são as outras redações, de jornais concorrentes, TVs, rádios,
internet. Então, quando “todo mundo” espera a saída do governador para as
próximas horas, Pedrosa está certo de que não haverá renúncia.
Nesses casos quem tem a informação - também encarregado, às vezes, de vazar
informações - é Olivério Dantas, o secretário do governador em exercício, que
deve ligar passando a decisão: renúncia cancelada de novo.
O Semideus da redação (Deus é o dono do jornal, da TV, às vezes de ambos e
também da rádio e do portal na internet) acredita no seu informante.
Acreditar faz parte do seu DNA, pelo menos até que esse informante falhe. E
isso acontece. Às vezes o informante é agente duplo e se gaba, lá nos
gabinetes de Brasília, de saber o que o jornal ou a TV no jornal da noite vai
noticiar amanhã ou dali a duas horas.
Um jornal do Rio pagava os salários de um colunista eventual - aquele que
escreve sazonalmente um artigo ou outro – só por causa de sua proximidade com
o ex-presidente Sarney. Seus serviços eram solicitados uma ou duas vezes por
semana, mas quando Sarney implantou seu Plano Econômico - que proibia
quaisquer aumentos de preços, sob quaisquer circunstâncias - “fiscais do
Sarney” tornaram-se celebridades da mídia e houve ameaça de que alguns bois
fossem recolhidos nos pastos - o colunista acidental teve que trabalhar duro.
Enchendo o saco dos assessores diretos do presidente. E até do próprio, que
não teve jeito senão atender ao telefone umas duas ou três vezes. Em troca, o
Sarney tinha total respaldo do jornal.
Mas no caso da renúncia do governador...
- O homem já renunciou, Pedrosa!
- Alguém já leu a carta, o texto da renúncia já chegou por e-mail?
- Não, mas o pessoal da sucursal já avisou.
- Eu tenho informações de que a renúncia não vai acontecer.
- Outra vez?
- Outra vez, o homem é frio, conhece o jogo.
- Mas, olha só Pedrosa, os sites do outros jornais, todo mundo já deu a
renúncia!
- Vão ter que voltar atrás, eu acredito.
Pedrosa tinha informações seguras de que o homem ia negacear pela segunda
vez. Afinal o informante, assessor informal no gabinete, era nada mais nada
menos, que o segundo nome da hierarquia no pool de empresas do
empresário/governador.
Governador agora acuado pela Justiça, as provas - entrevistas de ex-parceiros
tirando rapidamente o deles da reta e coisa e tal - algumas fajutas, outras
concretas, brotando a toda hora em jornais, rádios e TVs.
O tempo passava, o editor Francisco Pedrosa queria mais tempo para dar a
notícia sozinho. A não renúncia do governador era certa mesmo? Pedrosa
começava a sentir que, ele próprio, já tinha uma pontinha de dúvida. Os sites
da concorrência já estavam no ar há pelo menos duas horas. Mas era preciso
confiar no taco, arriscar. “Tudo o que o homem desejou na vida foi ser
governador; não vai entregar isso de graça”, tinha dito o assessor no meio da
tarde.
Mas a confirmação da renúncia vem dois minutos depois. Uma TV a cabo entra
com imagens em tempo real da saída do governador do palácio, em meio ao
tumulto habitual nessas horas. Pouco depois, alguém da sucursal avisa que vai
passar o texto da carta: duas ou três linhas, informa o repórter autor da má
notícia.
O Semideus Pedrosa está meio perplexo, manda que alguém faça uma ligação...
Melhor, ele mesmo faz, pelo celular, mas o número do assessor informal está
na caixa postal. O editor manda que liguem para o chefe da sucursal, mas
desiste um minuto depois.
Vai para a sua sala. Sabe que cometeu um erro e o pretenso furo de reportagem
virou fumaça. O problema é que alguém pode ter ligado para os donos do jornal
avisando sobre a edição eletrônica. “Só vocês é que não estão dando a
renúncia do governador”, Pedrosa imagina a voz, anônima para ele, mas
confiável para os irmãos empresários, seus patrões.
Naquele momento, o mais velho está bebendo uísque sozinho no terraço do
apartamento em Ipanema, o do meio, na cama com a modelo, num apartamento
coincidentemente na mesma quadra e o terceiro, no banco de trás do carro, com
o filho, a caminho da casa de campo em Itaipava.
Pedrosa imagina quanto tempo vai passar até que o telefone toque na sua sala
e a cobrança venha, nas asas nada suave da voz de um dos netos do patriarca,
morto há alguns anos, que viaja com o pai pela Rio-Petrópolis, inocente aos
acontecimentos na redação.
Ou nas asas do pai dele, ao lado no carro, lendo um artigo de revista em que
o jornal da família é massacrado. A voz do pai é gelada como os cubos de gelo
que ele, Pedrosa, põe agora no copo de uísque. O mesmo uísque que bebe com
certa regularidade depois que se tornou editor. E “está autoridade”. Ou até
acima de algumas autoridades, bajulado pelo secretário estadual de Fazenda ou
mesmo pelo ministro do governo ao qual o jornal faz oposição. É uma sensação
agradável e ele tem que se esforçar para não deixar transparecer um quase
orgasmo que, às vezes, faz com que se distraia.
- “Desculpe, secretário, eu não entendi”.
- “Bom eu estava dizendo que...”
Mas o telefone não toca. O editor da página na internet entra sem bater.
- Já estamos com a renúncia no site.
- OK. A carta...
- Na íntegra. São duas ou três linhas, nada mais. Daqui a cinco minutos chega
a matéria completa. Vamos substituir o que está postado. O Gilvan está
terminando o editorial...
- Nada de editorial, não quero opinião do jornal sobre a renúncia.
- Tá certo. Tem material de sobra.
Pedrosa lembra que são dez para as nove. O pessoal da editoria de política do
jornal também não tinha cruzado os braços, apesar da opinião dele e um resumo
da gestão do governador que acabara de sair já estava pronto e na página. Um
subeditor estava finalizando o texto sobre a vida do renunciante.
Renunciante? Era essa a palavra certa? Não sabia. De repente, seu mundo
estava sendo abalado e o risco de quebra das colunas que o mantinham de pé
parecia absurdamente plausível.
Pensou na mulher, nos filhos pequenos, no apartamento de luxo (alugado, mas
se o mundo desabasse, teria que voltar para o seu três quartos num condomínio
de classe média na Barra, comprado pela Caixa, nos tempos em que ainda não
passava de um editor na área de cidade: lixo demais nas ruas, praias poluídas
pelo cocô da cachorrada, inauguração de hospital, problemas no zoológico, uma
sessão especial na Academia Brasileira de Letras, o presidente com o
governador inaugurando obras em uma favela, o esgoto vazando na rua em
Ipanema.
E justo na rua onde morava o segundo irmão, a Cedae tinha acabado de abrir um
buraco gigantesco. O homem mal conseguira sair de casa com o carro, os
seguranças tiveram que ir num táxi.
“- Me chama o Everardo! Ou melhor que isso, pergunta se a Cedae já tapou o
buraco na rua do Doutor Heleno?”
A resposta tinha vindo segundos depois. Everardo já tinha fechado as páginas
de cidade e estava indo embora.
“- Pedrosa, aquilo é coisa pra dois três dias!”
“- Absurdo”.
“- Não é não. Os caras vão trocar um pedaço de adutora, mas têm que tomar
cuidado com a tubulação de gás, os cabos da TV...”
Pedrosa lembra-se de que um acordo, no governo anterior, permitira à empresa
de TV por assinatura do grupo passar seus cabos, praticamente sem custos,
pelos mesmos caminhos subterrâneos das tubulações de água e gás. Ele mesmo
tinha conversado com o prefeito sobre o assunto.
“- Se as outras empresas não criarem problema...”
“- Com certeza não vão, prefeito.”
A coisa foi feita. Os técnicos da TV por assinatura tiveram apenas que
implantar alguns bueiros a mais na calçada e tudo certo. Pedrosa ganhou
alguns elogios do irmão mais velho que, uma vez, quando ele , Pedrosa, dava
seus primeiros passos na redação, tinha apontado para uma TV e profetizado
“essa porra é a nossa máquina de fazer dinheiro”. Há quantos anos? Pedrosa
não se lembrava mais.
O telefone não toca, o editor da primeira página vem informar que a chamada
da renúncia do governador está em duas colunas, título em duas linhas.
- Tá bom. O governador é amigo do jornal, não vamos fazer escarcéu.
Falava e ouvia suas próprias palavras ecoando, uma coisa estranha.
O telefone toca. É um velho jornalista, que trabalhara com o pai dos Deuses.
Com mais de 80 anos tinha um cargo fictício de Diretor de Jornalismo, não
apitava mais nada, mas, talvez para merecer o salário, ligava toda noite para
a redação.
- Pois não, Doutor Matheus. Vamos sair com chamada de capa discreta. A
matéria vai para a página três, não tem jeito, mas nós estamos fazendo apenas
o relato dos acontecimentos. Nada mais. Ok, ok, a coisa está discreta, o mais
discreto possível, dadas as circunstâncias, Doutor Matheus.
O traste não tinha percebido o furo na edição eletrônica. Felizmente, idosos
não acessam a internet. Pedrosa ficou um pouco mais calmo. Dentro de alguns minutos
vai estar confortavelmente instalado no banco de trás do Passat, a caminho do
apartamento no final de Leblon. A tempo de tomar um banho, esperar (as
tradições têm que ser respeitadas) pelo menos 45 minutos até que Rosália
troque duas ou três vezes de vestido, finalize a maquiagem e, depois, a
recepção.
O telefone toca.
É o Deus Supremo, o maior dos Deuses no Olimpo da empresa. Queria saber por
que todos os sites, menos o do jornal, já estavam no ar, desde cedo, com a
renúncia do governador e eles não. Pedrosa pensou estar ouvindo o som de
cubos de gelo num copo de cristal.
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