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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

 

Conversa à noite no Maiorca

 

 

O bar parece infinitamente extenso; ladrilhos brancos distribuídos em simetria, mas entrecortados por quadrados azuis, que vão até um teto de madeira pintada, branco fosco, e infinitamente alto em relação ao piso de ladrilhos também decorados, gastos.

Pendendo desse teto, fios e bocais, seis ou sete, com lâmpadas incandescentes. Na porta de entrada, uma placa de madeira indica que ali é o Bar Maiorca.

 É a primeira vez de Jack entra naquele misto de restaurante e botequim, conhecido apenas de relance, em passagens rápidas na calçada, trecho final da Praça Getulio Vargas, Nova Friburgo, perto do terminal dos ônibus que levam à cidades próximas e ao Rio de Janeiro..

Jack escolhe o terceiro banco redondo junto ao balcão; o bar esta vazio aquela hora da noite, apenas um homem, sentado numa das poucas mesas no fundo, encostadas na parede lateral.

 Não consegue identificar o rosto por trás do balcão, mas o sorriso é amistoso.:

- Você por aqui!

- Por aqui...?

- Não se lembra de mim...

- Deveria?

- Bar na Rua de Santana, quase esquina da Presidente Vargas... Você baixava lá com o pessoal da reportagem..,

Cabelo penteado, a barriga proeminente, Jack consegue imaginar pernas tomadas pelas varizes, o conforto de sandálias havaianas. O maço de cigarros fica ao alcance da mão.

- Desculpe; só me lembro do bar.

- Não tem importância! Vai de conhaque?

A busca por alguma ajuda no poço fundo da memória é em vão, mas agora tinha certeza de que estava diante de alguém que conhecia. No passado conhaque era sua primeira escolha.

- Não bebo mais conhaque. Tem uns vinte anos que não bebo conhaque; me traz uma vodca!

A dose é generosa. Jack fica quase feliz de repente! Olha o homem do outro lado do balcão. Mais ou menos cinquenta anos, cinquenta e cinco? Mas no rosto, nenhum traço familiar.

- Tinha você, o Monteiro, o Milton, o Hélio, o Paulo, um outro, que eu não me lembro o nome, bem mais velho, um escuro, que era motorista e não bebia...

- O mais velho era o Salles, estava se aposentando, o motorista era o Fernando...- Jack é assolado de repente por uma ternura nostálgica.

- Isso, Salles! Bebia uma e pegava o taxi! Que ano foi isso!

- sei lá, década de 60. O Salles morreu logo depois que saiu do jornal.

- Faz tempo, a gente ainda era moço.

- Mais de vinte anos.

Outra vodca, tão generosa quanto, aterrisa no balcão.

- Você tá trabalhando no O Friburguense, vi o nome numa reportagem! Como é que você veio parar em Friburgo?

- E você, como é que veio parar aqui na Serra? – Jack, prefere dar um tempo, evitando falar nos motivos que o tinham levado a trabalhar em Nova Friburgo, por menos da metade do que recebia no último jornal, no Rio. De onde tinha saído, depois de um acordo para evitar a chamada demissão por justa causa.

A passagem por três redações de jornais, de onde acabava saindo por conta da bebida, era a causa de ter aceito o trabalho na cidade, mas o dono do Maiorca não precisava saber.Pelo menos por enquanto.

O homem, que no passado distante servia conhaque num bar da Rua de Santana esquina com Avenida Presidente Vargas, pouco se importa com o recuo.

Talvez porque esteja ansioso para revelar sua história, a história de como havia chegado a Friburgo desde os encontros de todas as noites, nas mesmas condições, no bar do Centro do Rio.

Era uma história simples, normal, como tantas, nas vidas dos moradores dos subúrbios do Rio. Jack podia imaginar  uma infância sem maiores proezas do que crescer soltando pipa na rua, peladas num terreno baldio, ensino fundamental mal concluído numa escola pública porque precisava ajudar o pai.

- Briguei com meu pai quando tinha uns vinte e cinco, vinte e seis anos e saí pra montar meu próprio negócio.

 Inicialmente um restaurante, que não deu certo e acabou virando botequim.  Dois ou três anos depois a compra de um bar,melhorzinho, numa rua no bairro de Ramos, “coisa pequena também.” O casamento com a mulher, de família friburguense, que dava duro na limpeza do bar à noite, quando ele estava morto de cansaço.

Tudo bem, a família morando de aluguel na mesma rua até o dia do assalto. O dinheiro do caixa era pouco e nem foi levado, mas na saída, sem motivo aparente um freguês solitário levou dois tiros, um na cabeça outro no peito!

- O freguês morreu na hora, veio a PM, juntou uma multidão na porta, a mulher teve uma crise de nervos, “que não queria mais ficar ali! que tinham que ir embora e não se conformava! Que se ele não quisesse ia sozinha! Que como é que a gente pode viver num lugar em que se mata uma pessoa assim, na frente de todo mundo, às seis horas da noite!”

- Não foi um tempo ruim ali em Ramos. Abria o bar bem cedinho pro café do pessoal das fábricas e do comércio e estava até ganhando um dinheirinho.

Mas depois da morte no bar vieram as consequências: várias idas à delegacia, maltratado por escrivãos mal educados, querendo saber o que ele não sabia, um policial aparecendo à noite no bar, querendo bebida de graça.

E a mulher insistindo, falando muito, implicando muito, dizendo que ia embora, que ia embora com a criança!.

- Vendi o bar, que tinha um cara já de olho, vendi até bem e comprei esse aqui. Por causa da família dela; depois comprei o sobrado. Divido com uma cunhada dela que mora no quarto dos fundos e de vez em quando paga aluguel. Mais uma?

Jack faz um sinal que sim, quer mais uma.

A terceira vodca desce ainda mais suave, enquanto imagina uma história para justificar porque estava ali, trabalhando num pequeno jornal de Nova Friburgo, ganhando menos da metade do salário no Rio, morando num apartamento emprestado pelo dono do jornal, um antigo colega de redação há muito aposentado.

Pergunta se o banheiro é nos fundos.

O local é até limpo para padrões “botequim pé sujo.” Um limão galego cortado, faz as vezes de desodorante, mas   não há tábua na privada nem toalha de papel. Apenas um resto de sabão de côco que escorrega da lateral da pia para o chão.Não dá a mínima.Volta para o balcão com as mãos molhadas e um pano encardido sai do ombro do dono da bar para o providencial enxugamento.

- E você Jack como é que veio parar em Friburgo?  

A pergunta, uma insistência já esperada, não chega a incomodar. Até porque o homem por trás do balcão, contrariando dispositivos, regras e coisa e tal, tinha bebido uma cachaça “produzida na região”, e estava mais a vontade.

- Nada de importante, o problema é que eu nunca morri de amores pela chamada linha editorial de nenhum dos jornais onde trabalhei. Todos apoiadores da Ditadura Militar e eu não gostava da maneira como a direção...Bom, isso não tem nada a ver. O caso é que, de repente você escreve alguma coisa que a chefia de reportagem não gosta porque  está fora da linha do jornal. Você pensa que está fazendo o seu trabalho, mas a matéria ou o parágrafo dentro da matéria está fora da linha do jornal. Passa o tempo e um dia você, meio chapado, vai até a sala do editor-chefe e defende o teu ponto de vista. Insiste, porque a matéria  deu um trabalho enorme e acabou não sendo foi publicada, essas coisas...

- Você largou o emprego só por isso?

- Não larguei. Dias depois quando eu estava colocando o paletó nas costas da cadeira, o chefe da reportagem disse que eu, no dia seguinte, fosse direto para o Departamento de Pessoal, o RH de hoje.

Era só meia verdade. Não tinha sido o texto, ou o parágrafo, mas o cheiro do conhaque.

No episódio da primeira demissão Jack já estava cansado de saber que jornais refletem os interesses de seus anunciantes, e anunciantes são empresários conservadores, muitos deles naquela época, apoiadores da Ditadura Militar.

Gente que ele, Jack, podia detestar desde os tempos de faculdade, mas que faziam parte da vida, do seu dia a dia, do emprego, do motivo para sair de casa pela manhã.

Sabia também que sua posição, as vezes expressa em discussões meio sem sentido na redação, podia até ser  tolerada por editores e chefes de reportagem que, em geral gostavam das matérias produzidas por ele. E sabia também que, matérias que não estão de acordo com a linha editorial nunca chegam às páginas. Ou nunca vão ao ar, no caso das TVs.

- Isso foi no tempo da Ditadura e depois?

- A ditadura militar acabou, mas as coisas não mudaram tanto assim. A gente é mais ingênuo do que pensa aos  trinta anos. Alguns de nós, repórteres com experiência nos anos de chumbo, esperávamos, ou sonhávamos com uma nova postura do jornalismo diante da nova realidade. Pautas melhores, você, apurando e escrevendo sobre assuntos que a Ditadura não permitia, numa espécie de doa a quem doer, que era impossível claro...Desce mais uma aí parceiro!

- Isso te incomodava?

No fundo o papo era apenas para impressionar o respeitável público, sendo esse respeitável público apenas um dono de bar de quem ele nem o nome sabia. Sempre soube que o chamado jornalismo investigativo só funcionava dentro dos parâmetros da linha do jornal. A descoberta de um grande caso de corrupção passava primeiro pelo crivo da chefia e coisa e tal. Mas estava ali para impressionar o dono do bar, passando o tempo antes do sono.

- Isso te incomodava,mesmo?

- Claro, teve o caso de um chefe de polícia,ou secretário de segurança, não me lembro como o cara era chamado na época. O negócio é que o ocupante do cargo era um general e o general, segundo um policial que não gostava dele, tinha aceito um belo cheque pra deixar o jogo do bicho correr mais ou menos solto em todo o estado do Rio de Janeiro.  Já corria, é claro, mas o general tinha ameaçado proibir e coisa e tal, No embalo a coisa vazou e um deputado estadual se dispôs falar sobre o caso. Contar o que sabia sobre o cheque dos bicheiros...

Um homem de terno, perfumado, entre no bar, pede dois maços, mas o cigarro que ele quer acabou. Faz um gesto de aborrecimento, nem olha para Jack e volta para o carro, parado na porta do Maiorca, onde há um ponto de ônibus e é proibido parar.

- E então?.

- Ouvi o deputado, era um cara da oposição, mas muito bem informado sobre as merdas do governo. Mas pra seguir com a matéria, eu tinha que falar diretamente com o general. Então pedi ajuda ao chefe da reportagem, um cara de quem eu até gostava e que conhecia melhor do que eu os atalhos, os telefones de gabinete do homem.

Jack faz um gesto estudado, bebendo um gole profundo da vodca.

- O caso é que, mesmo sem antes falar comigo, ele levou o caso, ao editor-chefe do jornal.

Toca o telefone, o dono do Maiorca atende e parece irritado com o que ouve do outro da linha. Dá um “to ocupado agora” e bate o telefone.

- Porra, minha mulher querendo saber onde estão os papeis do inventário do meu pai. Eu e minha irmã estamos querendo vender o bar dele lá em Vila Valqueire! É uma loja nova, num prédio novo, deve valer alguma coisa. Eu te interrompi...

- Bom, fui chamado à sala do editor-chefe pra explicar que porra de pauta era aquela?! Quem tinha mandado fazer matéria sobre o chefe de polícia e coisa e tal. Minha reação, foi uma surpresa até pra mim mesmo. Defendi minha pauta, enfrentei o editor-chefe e acabei irritado, aos berros, a ponto do cara ameaçar chamar os seguranças. Dois minutos depois estava sentado no bar mais próximo enchendo a cara. Resumo da ópera: pedi demissão depois de sumir durante uma semana.  

Jack não conseguia lembrar da reação real ao esporro do chefe da reportagem mais de trinta anos depois. Até porque tinha invertido a ordem: primeiro o bar depois a aporrinhação. Mas lembrava de ter jogado as laudas no chão, ter dado meia volta e saído em dizer nada.

Nessa época já começava a se sentir desconfortável com o trabalho e, aos poucos ia odiando mais e mais a profissão.

Depois da segunda demissão, tinha trabalhado alguns meses como assessor de imprensa em uma autarquia do governo federal. Um emprego quase informal – recebia em dinheiro, na boca do caixa, o Banco do outro lado da rua.

Mas, ali a ociosidade era o caminho mais fácil para o botequim. Passava o dia lendo jornais, algumas revistas, procurando matérias que mencionassem alguma coisa relacionada com a autarquia. E descendo para beber a cada meia hora.

Um dia, antes de se despedir dos colegas, a caminho de casa, voltando do botequim, acabou caindo na calçada a poucos metros do prédio da autarquia.

Levado para o Hospital Souza Aguiar, no dia seguinte, curado por uma injeção de glicose, teve que ouvir o “sinto muito, não dá mais”, da boca do amigo repórter, responsável  por aquele emprego.

Então, depois de três ou quatro meses parado, o dinheiro no banco chegando ao fim, precisou recomeçar, perambulando pelas redações, procurando velhos amigos, tendo que dizer que a bebida era coisa do passado e coisa e tal.

- E em casa? A família?

- Morava sozinho nessa época, já estava há muito tempo separado da mulher, saia com uma garota dez anos mais nova, meio hippie. Que de vez em quando me levava uma nota, mas tudo bem.

A luz do Maiorca dá uma claudicada, ameaça apagar,o  dono do boteco xinga, diz que a concessionária é uma merda, que esses picos de luz queimam a geladeira, mas tudo volta ao normal.

O que é que estava falando, mesmo?

- Da garota que te levava uma nota.

- Sei... Marli, mas o que é que a Marli tem com a história?

- Bom, antes você disse que estava procurando emprego. De novo.

- É isso mesmo, num desses périplos, aceitei a mudança trabalhar na editoria de polícia. Achei bom. Pelo menos ali não havia espaço para conflitos pessoais. Na,polícia só tem espaço para coisas como desastre, incêndio, prisão de bandidos mais ou menos conhecidos da mídia, contrabando apreendido num navio com bandeira da Libéria, um ricaço, pego enchendo a mulher de porrada, ou funcionário público de alto escalão, bêbado dando tiros na rua. Desde então nunca mais parei de fazer polícia.

Música sertaneja irrompe no silêncio na Maiorca. O dono bar pega o celular em cima da geladeira; desliga.

- É pra me lembrar que essa é a hora de fechar o bar. Mas esquece, a conversa tá muito boa.

- Uma vez eu fiz um plantão meio estranho, na porta de um motel, para que o fotógrafo flagrasse um empresário conhecido saindo de lá com um rapaz. A matéria não foi publicada, mas a TV do grupo mostrou o fragrante no jornal da noite. Eu nunca entendi.

A vodca, quinta ou sexta fica diante dele no balcão. Jack sabe que o efeito agora é uma quase euforia que se sobrepõe ao cansaço e quer continuar falando.

- De resto o trabalho diário da reportagem policial é voltado para o que acontece em favelas, ou subúrbios mais pobres, onde gente inocente morre em trocas de tiros, onde a PM invade barracos para prender pequenos, traficantes, aviões do tráfico, frequentadores de bocas de fumo e vai por aí. As brigas entre desafetos pobres, nas portas dos botequins, um “pé inchado” esfaqueando outro, nunca vão para as páginas de jornais impressos ou televisivos.

Uma jovem mulher entra no bar, trazendo pela mão uma menina. A mãe, ou pelo menos é o que Jack supõe, pede dois cigarros a varejo, cata na bolsa algumas moedinhas, contadas uma a uma pelo dono do bar. Jack faz um sinal de adeus para a criança, ela responde com um sorriso encolhido. A mulher sorri também e ganha a calçada em direção aos pontos de ônibus da Praça Getúlio Vargas. 

- Um vez, faz tempo, agora já não sei se foi no primeiro oun no segundo jornal, eu quase fui mandado embora, por uma matéria que, essa sim, chegou nas bancas. Era uma visita pastoral do cardeal arcebispo do Rio de Janeiro. O texto saiu sem que nem o copy desk, o cara que dá um trato na matéria, antes dela ir pra página, corta,aumenta com dados da pesquisa e coisa e tal, e nem o editor, que em geral também dá uma olhada  percebessem. No dia seguinte o dono do jornal leu na página cinco que seu amigo,o cardeal arcebispo, tinha desprezado os moradores da favela da Mangueira e ido embora, sem saltar do carro, incomodado com o cheiro de uma vala negra... Deu merda, o porra do cardeal telefonou puto dentro das calças, no caso dentro da batina!

A luz do bar parece de novo tremer um pouco. Problemas com a concessionária de energia ou a vodca fazendo efeito?

- Se ninguém viu, quero dizer, os caras que estavam acima, não viram, Qual era a tua culpa?

- Foi por isso que a coisa ficou só numa advertência. O editor, era um cara bem jovem que gostava do que eu escrevia, confiava em mim, e por isso não leu o texto maldito. Era um garoto de família rica, formado na Pontífícia Universidade Católica, também não foi demitido, mas acabou mandado fazer o mesmo o mesmo serviço numa revista de modas do grupo...

O homem usando um paletó azul escuro encardido, uma havaiana no pé esquerdo, levando alguma coisa embrulhada num pano chega no balcão. O dono do bar serve uma cachaça o homem bebe de uma vez começa a catar moedas no bolso da calça. Paga e sai

 - Porque a história do cardeal provocou quase encrenca a tua vida ? Não era verdade  o que você escreveu? Vai mais uma? Você ainda é aquele cara que nada te derruba?

 - A verdade é que jornalismo não importa muito nessas horas  . O que importa é a política do jornal, ou a maneira como a notícia sai. Ou não sai. Às vezes a política do jornal, o interesse dos donos do jornal determinam o que, vai ou não para as páginas. E olha só: não sou mais aquele cara que nenhuma bebida derruba, mas estou morando aqui perto; não preciso de um táxi pra voltar pra casa.

O mendigo retorna pede outra cachaça, mas o dono do bar diz que ele tem que primeiro mostrar o dinheiro. O homem mexe nos bolso, mas o que sai é uma moeda que não dá pra pagar a bebida.

- Bota a cachaça dele na minha conta e desce a penúltima, por favor.

A história real, que Jack ia deixando de lado ali, naquele bar vazio de Nova Friburgo é que há muito tempo, não suportava  o dia a dia do jornalismo, a tensão, o interlocutor que promete contar tudo, mas que desaparece a mando do advogado, a matéria que cai porque outra de maior interesse entrou na página, a pauta que não foi cumprida porque o carro de reportagem estava com outro repórter que se atrasou e ele não conseguiu um táxi, às seis horas da tarde no centro, para checar porque  o gás da distribuídos não estava chegando aos clientes de Laranjeiras.

Não tinha mais a menor vontade a menor paciência, mas não saberia fazer outra coisa  Já não ligava mais, para o conservadorismo da linha dos jornais e nem para editoriais conservadores, que acabava lendo, pela manhã, para ver se suas matérias haviam sido publicadas.

Em um momento de quase desespero, o dinheiro da indenização acabando, o crédito cortado na maior parte dos bares próximos de casa, tinha encontrado um ex-colega de redação. Talvez a aparência, seu estado geral, quando se olhava no espelho pela manhã era péssimo, tenha despertado a velha solidariedade do ex-repórter, agora proprietário de o Friburguense, que tinha feito o convite para trabalhar naquela cidade.

- O salário é metade do que você recebia, mas a vida no interior é mais barata, você vai ver. E pode deixar teu carro na estacionamento de meu prédio, eu tenho direito a duas vagas.

A voz ainda, soava no ouvido enquanto subia a serra, o tanque ameaçando secar no meio do caminho.

E agora, entrando pela primeira vez no bar Maiorca, bebendo com uma parte do passado, não tinha ilusões sobre como aquele capítulo da vida ia terminar.

Provavelmente como os anteriores.

O homem sentado no fundo, faz sinal, e a conversa é interrompida. O homem resmunga alguma coisa. O dono do bar, volta.

- É um cara legal, mas fica bêbado toda noite e, se tomar mais uma não vai conseguir pegar o ônibus... Você não se lembra, mas o meu nome é Silas.

 Bêbados e garçons, donos de bares & assemelhados costumam se entender sem necessidade de palavras e até nomes que interrompam narrativas: um copo lavado, com mais uma dose de vodca é colocado diante de Jack.

- Você cobriu aquele caso da morte da Luz de Fuego?

 - Faz muito tempo, né? Eu participei,a história rendeu várias matérias, Ela foi morta numa ilha no meio da Baia de Guanabara, o assassino...

 

 A renúncia do governador



Às vezes acontece. 

O chefe supremo do jornalismo, a autoridade máxima da redação, o super editor, o Semideus do pedaço, o queridinho do Doutor Fulano, ou coisa que o valha, está a ponto de tomar um furo eletrônico. (Furo é quando você não dá uma notícia importante que já saiu ou vai sair na concorrência. Você bobeou, bestou e coisa e tal...)

A rapaziada, um ou dois degraus abaixo, adverte, mas Pedrosa, o filho dileto dos Deuses, acha que tem uma poderosa carta na manga. No caso, um contato próximo, de absoluta confiança - porque tem que ser de absoluta confiança! - que pode mudar a maré montante. Segundo o contato, o governador em exercício não vai renunciar. Embora todo mundo ache que vai.

Todo mundo são as outras redações, de jornais concorrentes, TVs, rádios, internet. Então, quando “todo mundo” espera a saída do governador para as próximas horas, Pedrosa está certo de que não haverá renúncia. 

Nesses casos quem tem a informação - também encarregado, às vezes, de vazar informações - é Olivério Dantas, o secretário do governador em exercício, que deve ligar passando a decisão: renúncia cancelada de novo. 

O Semideus da redação (Deus é o dono do jornal, da TV, às vezes de ambos e também da rádio e do portal na internet) acredita no seu informante. Acreditar faz parte do seu DNA, pelo menos até que esse informante falhe. E isso acontece. Às vezes o informante é agente duplo e se gaba, lá nos gabinetes de Brasília, de saber o que o jornal ou a TV no jornal da noite vai noticiar amanhã ou dali a duas horas. 

Um jornal do Rio pagava os salários de um colunista eventual - aquele que escreve sazonalmente um artigo ou outro – só por causa de sua proximidade com o ex-presidente Sarney. Seus serviços eram solicitados uma ou duas vezes por semana, mas quando Sarney implantou seu Plano Econômico - que proibia quaisquer aumentos de preços, sob quaisquer circunstâncias - “fiscais do Sarney” tornaram-se celebridades da mídia e houve ameaça de que alguns bois fossem recolhidos nos pastos - o colunista acidental teve que trabalhar duro. Enchendo o saco dos assessores diretos do presidente. E até do próprio, que não teve jeito senão atender ao telefone umas duas ou três vezes. Em troca, o Sarney tinha total respaldo do jornal. 

Mas no caso da renúncia do governador...

- O homem já renunciou, Pedrosa!
- Alguém já leu a carta, o texto da renúncia já chegou por e-mail? 
- Não, mas o pessoal da sucursal já avisou.
- Eu tenho informações de que a renúncia não vai acontecer.
- Outra vez?
- Outra vez, o homem é frio, conhece o jogo.
- Mas, olha só Pedrosa, os sites do outros jornais, todo mundo já deu a renúncia!
- Vão ter que voltar atrás, eu acredito.

Pedrosa tinha informações seguras de que o homem ia negacear pela segunda vez. Afinal o informante, assessor informal no gabinete, era nada mais nada menos, que o segundo nome da hierarquia no pool de empresas do empresário/governador.

Governador agora acuado pela Justiça, as provas - entrevistas de ex-parceiros tirando rapidamente o deles da reta e coisa e tal - algumas fajutas, outras concretas, brotando a toda hora em jornais, rádios e TVs. 

O tempo passava, o editor Francisco Pedrosa queria mais tempo para dar a notícia sozinho. A não renúncia do governador era certa mesmo? Pedrosa começava a sentir que, ele próprio, já tinha uma pontinha de dúvida. Os sites da concorrência já estavam no ar há pelo menos duas horas. Mas era preciso confiar no taco, arriscar. “Tudo o que o homem desejou na vida foi ser governador; não vai entregar isso de graça”, tinha dito o assessor no meio da tarde. 

Mas a confirmação da renúncia vem dois minutos depois. Uma TV a cabo entra com imagens em tempo real da saída do governador do palácio, em meio ao tumulto habitual nessas horas. Pouco depois, alguém da sucursal avisa que vai passar o texto da carta: duas ou três linhas, informa o repórter autor da má notícia.

O Semideus Pedrosa está meio perplexo, manda que alguém faça uma ligação... Melhor, ele mesmo faz, pelo celular, mas o número do assessor informal está na caixa postal. O editor manda que liguem para o chefe da sucursal, mas desiste um minuto depois. 

Vai para a sua sala. Sabe que cometeu um erro e o pretenso furo de reportagem virou fumaça. O problema é que alguém pode ter ligado para os donos do jornal avisando sobre a edição eletrônica. “Só vocês é que não estão dando a renúncia do governador”, Pedrosa imagina a voz, anônima para ele, mas confiável para os irmãos empresários, seus patrões. 

Naquele momento, o mais velho está bebendo uísque sozinho no terraço do apartamento em Ipanema, o do meio, na cama com a modelo, num apartamento coincidentemente na mesma quadra e o terceiro, no banco de trás do carro, com o filho, a caminho da casa de campo em Itaipava. 

Pedrosa imagina quanto tempo vai passar até que o telefone toque na sua sala e a cobrança venha, nas asas nada suave da voz de um dos netos do patriarca, morto há alguns anos, que viaja com o pai pela Rio-Petrópolis, inocente aos acontecimentos na redação. 

Ou nas asas do pai dele, ao lado no carro, lendo um artigo de revista em que o jornal da família é massacrado. A voz do pai é gelada como os cubos de gelo que ele, Pedrosa, põe agora no copo de uísque. O mesmo uísque que bebe com certa regularidade depois que se tornou editor. E “está autoridade”. Ou até acima de algumas autoridades, bajulado pelo secretário estadual de Fazenda ou mesmo pelo ministro do governo ao qual o jornal faz oposição. É uma sensação agradável e ele tem que se esforçar para não deixar transparecer um quase orgasmo que, às vezes, faz com que se distraia.

- “Desculpe, secretário, eu não entendi”.
- “Bom eu estava dizendo que...”

Mas o telefone não toca. O editor da página na internet entra sem bater.

- Já estamos com a renúncia no site.
- OK. A carta...
- Na íntegra. São duas ou três linhas, nada mais. Daqui a cinco minutos chega a matéria completa. Vamos substituir o que está postado. O Gilvan está terminando o editorial...
- Nada de editorial, não quero opinião do jornal sobre a renúncia.
- Tá certo. Tem material de sobra.

Pedrosa lembra que são dez para as nove. O pessoal da editoria de política do jornal também não tinha cruzado os braços, apesar da opinião dele e um resumo da gestão do governador que acabara de sair já estava pronto e na página. Um subeditor estava finalizando o texto sobre a vida do renunciante. Renunciante? Era essa a palavra certa? Não sabia. De repente, seu mundo estava sendo abalado e o risco de quebra das colunas que o mantinham de pé parecia absurdamente plausível.

Pensou na mulher, nos filhos pequenos, no apartamento de luxo (alugado, mas se o mundo desabasse, teria que voltar para o seu três quartos num condomínio de classe média na Barra, comprado pela Caixa, nos tempos em que ainda não passava de um editor na área de cidade: lixo demais nas ruas, praias poluídas pelo cocô da cachorrada, inauguração de hospital, problemas no zoológico, uma sessão especial na Academia Brasileira de Letras, o presidente com o governador inaugurando obras em uma favela, o esgoto vazando na rua em Ipanema. 

E justo na rua onde morava o segundo irmão, a Cedae tinha acabado de abrir um buraco gigantesco. O homem mal conseguira sair de casa com o carro, os seguranças tiveram que ir num táxi.

“- Me chama o Everardo! Ou melhor que isso, pergunta se a Cedae já tapou o buraco na rua do Doutor Heleno?”

A resposta tinha vindo segundos depois. Everardo já tinha fechado as páginas de cidade e estava indo embora.

“- Pedrosa, aquilo é coisa pra dois três dias!”
“- Absurdo”.
“- Não é não. Os caras vão trocar um pedaço de adutora, mas têm que tomar cuidado com a tubulação de gás, os cabos da TV...”

Pedrosa lembra-se de que um acordo, no governo anterior, permitira à empresa de TV por assinatura do grupo passar seus cabos, praticamente sem custos, pelos mesmos caminhos subterrâneos das tubulações de água e gás. Ele mesmo tinha conversado com o prefeito sobre o assunto.

“- Se as outras empresas não criarem problema...”
“- Com certeza não vão, prefeito.”

A coisa foi feita. Os técnicos da TV por assinatura tiveram apenas que implantar alguns bueiros a mais na calçada e tudo certo. Pedrosa ganhou alguns elogios do irmão mais velho que, uma vez, quando ele , Pedrosa, dava seus primeiros passos na redação, tinha apontado para uma TV e profetizado “essa porra é a nossa máquina de fazer dinheiro”. Há quantos anos? Pedrosa não se lembrava mais.

O telefone não toca, o editor da primeira página vem informar que a chamada da renúncia do governador está em duas colunas, título em duas linhas.

- Tá bom. O governador é amigo do jornal, não vamos fazer escarcéu.

Falava e ouvia suas próprias palavras ecoando, uma coisa estranha. 

O telefone toca. É um velho jornalista, que trabalhara com o pai dos Deuses. Com mais de 80 anos tinha um cargo fictício de Diretor de Jornalismo, não apitava mais nada, mas, talvez para merecer o salário, ligava toda noite para a redação.

- Pois não, Doutor Matheus. Vamos sair com chamada de capa discreta. A matéria vai para a página três, não tem jeito, mas nós estamos fazendo apenas o relato dos acontecimentos. Nada mais. Ok, ok, a coisa está discreta, o mais discreto possível, dadas as circunstâncias, Doutor Matheus.

O traste não tinha percebido o furo na edição eletrônica. Felizmente, idosos não acessam a internet. Pedrosa ficou um pouco mais calmo. Dentro de alguns minutos vai estar confortavelmente instalado no banco de trás do Passat, a caminho do apartamento no final de Leblon. A tempo de tomar um banho, esperar (as tradições têm que ser respeitadas) pelo menos 45 minutos até que Rosália troque duas ou três vezes de vestido, finalize a maquiagem e, depois, a recepção.

O telefone toca.

É o Deus Supremo, o maior dos Deuses no Olimpo da empresa. Queria saber por que todos os sites, menos o do jornal, já estavam no ar, desde cedo, com a renúncia do governador e eles não. Pedrosa pensou estar ouvindo o som de cubos de gelo num copo de cristal.

 

 

  

 

Barbacena




- Me dá um cigarro? Voz engrolada, quase inaudível, suplicante. 

A resposta, um safanão, meio tapa, meio soco desajeitado. A porrada joga o rapaz, gemendo, no chão. Um gemido doído, baixo, conformado, como se a agressão fosse alguma coisa pela qual já esperasse. E não se importava. Talvez achasse que aquilo era só a sequência normal de outros socos, chutes e pauladas, que dois dias antes, tinham produzido ferimentos abertos, sangrando nas canelas inchadas e um olho desaparecido no arroxeado disforme, no lado direito do rosto, onde, um segundo antes, estivera pousada a mosca azul- metálico. O “olha pra mim seu puto!” vem a seguir, antes que consiga se interpor. 

Um tranco e Jack fica entre os dois, olhando dentro dos olhos do fotógrafo, a respiração acelerada... 

- Vai fazer merda aqui dentro? 

Nicácio baixa a rolleyflex, ele e Jack ficam se encarando, olho no olho, um ou dois infinitos segundos, até que o fotógrafo recue um passo e aponte de novo a câmera para o que deveria ser seu objetivo. Em silêncio.

- Então se segura, porra! – O repórter ouve sua própria voz ecoar na cela.

Rui Nicácio era bem mais velho. E tinha fama de não se segurar muito bem em situações como aquela. Era a primeira vez que trabalhavam juntos, mas havia antecedentes. 

Deu um refresco, olhou para fora: corredor estreito, uma porta aberta, a ponta da mesa do delegado. Ouviu vozes. Um sargento da polícia militar mineira estava no comando naquela madrugada fria e, aparentemente, não dera maior importância ao rápido bate-boca. 

O rapaz na cela da delegacia de Barbacena estava preso sob acusação de ter matado uma menina de dez anos, um crime que a polícia estava relacionando com outros, cometidos em circunstâncias parecidas: estupros seguidos de morte, as vítimas esfaqueadas inúmeras vezes. O encontro do corpo nu - cortes profundos no rosto, agora no necrotério - tinha traumatizado a cidade onde tudo estava acontecendo. 

Mas não tinham chegado a tempo de acompanhar a tentativa de invasão do posto de saúde, para onde o rapaz tinha sido levado, depois que uma guarnição da polícia civil de Belo Horizonte, que estava ali por acaso, conseguira evitar o linchamento.

A menina tinha sido morta dois dias antes, por volta das sete da manhã, num atalho que usava para chegar à escola. O criminoso, segundo vizinhos que já desconfiavam do comportamento do rapaz, tinha sido encontrado ainda com o sangue da vítima nas mãos, desmaiado, a poucos metros do local.

Jack tinha ficado mais ou menos impassível diante da choradeira da mãe que soubera, pela rádio local, da presença de jornalistas do Rio na cidade. A mulher caminhara duas horas até Barbacena, levando vidros e receitas médicas, tentando dizer que o filho era doente, não sabia o que fazia, “pelo amor de Deus, moço, não deixem que matem ele, podem até levar ele para um manicômio, mas ele não sabe o que faz quando fica nesse transe, mas nunca ameaçou ninguém, nunca magoou ninguém, só fica assim estrebuchando, depois cai em qualquer canto e custa muito a levantar”.

Agora, ali naquela cela, ouvindo os repentinos gritos de um preso com dores no estômago, está um pouco arrependido de não ter ouvido com mais atenção as palavras da mulher. E começa a achar que aquele rapaz de sandália havaiana no pé esquerdo – a outra com certeza perdida no quase linchamento – possivelmente é vítima do ódio cego, filho do medo dos moradores daquele fim de mundo, abalado, de repente, pelas mortes em série. Quem poderia saber se entre os algozes do rapaz não estava o verdadeiro assassino? 

Acha a frase razoável para um romance policial, vê a mãe aflita espiando lá do fim do corredor e pede ao policial que abra a cela. Nicácio guarda a câmera. A mulher espera por eles, ainda com as receitas e os vidros de remédio. Faz um sinal para que ela o acompanhe. 

Faz frio do lado de fora da delegacia e se arrepende de ter deixado o paletó no banco de trás do carro, estacionado do outro lado da praça por recomendação da polícia, onde o motorista dorme com os vidros fechados. O fotógrafo começa a tirar de novo a máquina de dentro da bolsa para bater outras fotos da mulher – as primeiras, antes de entrarem na cela, tinham sido feitas com visível má vontade. 

Suspira um pouco mais alto do que desejaria naquele silêncio de cidade do interior e resolve andar até o bar, onde os últimos curiosos estão bebendo cachaça, à espera de alguma novidade. A mãe do preso fica para trás, muda, remédios e receitas inúteis. Pára, faz um gesto pedindo que ela se aproxime. 

Começa a perguntar, agora calmo, qual era a doença do rapaz. As respostas atropeladas, entrecortadas por apelos (ele é doente, moço, mas nunca fez mal a ninguém, juro! passa muito mal, muito mal mesmo, quase morre, a gente tem que puxar a língua dele pra fora senão fica todo roxo!) agora produzem um efeito que ele acha indesejável, pelo menos para quem deveria se manter distante das emoções e carregar algumas doses de puro cinismo no bolso. Mas nem sempre se consegue. 

Sente-se mais fraco ainda quando vê que a mulher está com o outro pé da sandália e imagina um policial qualquer impedindo que ela o entregasse ao filho preso. A mulher continua falando. Anota e resolve que vai passar cada detalhe por telefone, para quem estiver de plantão na redação. E acha que talvez fique na cidade para tentar saber mais alguma coisa sobre aquelas mortes e o quase linchamento. Nesse momento, vê que porta do bar baixa, o barulho rompendo a noite silenciosa. 

Desperta, duas ou três horas mais tarde, com o barulho das rodas do trem e descobre que o quarto do hotel vagabundo está a meio metro da linha do cargueiro de minério que passa, vagaroso, provocando um terremoto. O copo, deixado na ponta da mesinha de cabeceira, cai no chão. 

Levanta, coloca o paletó. Está se sentindo sujo, mas o banheiro do hotel desencoraja o banho. Sai. Na portaria, o vigia noturno dorme na cadeira, o cobertor por cima do corpo, só a cabeça de fora. Abre a porta e vê que Nicácio vem atrás dele. Imagina que vai se aporrinhar. Mas o fotógrafo também sofre de insônia e só quer mesmo é contar sua história. 

Ex-jogador de futebol, clubes do interior paulista, antes de se tornar fotógrafo, tinha ralado um tempo no laboratório, revelando o trabalho dos outros e levando a tira de cópias em 35mm para que os editores pudessem escolher a que ia para a página. Nessas incursões na redação, tinha feito amizade com o pessoal do esporte – um ou outro repórter tinha ouvido falar na passagem dele pelo Botafogo de Ribeirão Preto – e com esse aval conseguira uma chance, primeiro fotografando treinos do meio de semana. Mais tarde, já dominando o uso das grandes angulares, passou a cobrir os jogos de fim de semana do gramado do Maracanã. 

Uma discussão com o editor de esportes, da qual tinha se arrependido e pedido desculpas, e fora remetido para o trabalho duro na editoria de polícia. Mas não se importava, queria continuar fotografando o resto da vida, se pudesse. A fama de encrenqueiro veio junto, “mas não era nada disso”. Bateu no ombro dele e apontou o botequim do outro lado da rua. A porta de aço de outro botequim estava sendo aberta pelo dono. 

- Vai de café?
- Não, mas quero te avisar de uma coisa: vamos ficar por aqui hoje, talvez amanhã.

A lua, cheia naquele amanhecer, ainda iluminava o céu das Gerais.