Conversa
à noite no Maiorca
O bar parece infinitamente extenso; ladrilhos brancos distribuídos
em simetria, mas entrecortados por quadrados azuis, que vão até um teto de
madeira pintada, branco fosco, e infinitamente alto em relação ao piso de
ladrilhos também decorados, gastos.
Pendendo desse teto, fios e bocais, seis ou sete, com
lâmpadas incandescentes. Na porta de entrada, uma placa de madeira indica que
ali é o Bar Maiorca.
É a primeira vez
de Jack entra naquele misto de restaurante e botequim, conhecido apenas de
relance, em passagens rápidas na calçada, trecho final da Praça Getulio Vargas,
Nova Friburgo, perto do terminal dos ônibus que levam à cidades próximas e ao
Rio de Janeiro..
Jack escolhe o terceiro banco redondo junto ao balcão; o
bar esta vazio aquela hora da noite, apenas um homem, sentado numa das poucas
mesas no fundo, encostadas na parede lateral.
Não consegue
identificar o rosto por trás do balcão, mas o sorriso é amistoso.:
- Você por aqui!
- Por aqui...?
- Não se lembra de mim...
- Deveria?
- Bar na Rua de Santana, quase esquina da Presidente Vargas... Você baixava lá com o pessoal
da reportagem..,
Cabelo penteado, a barriga proeminente, Jack consegue imaginar
pernas tomadas pelas varizes, o conforto de sandálias havaianas. O maço de
cigarros fica ao alcance da mão.
- Desculpe; só me lembro do bar.
- Não tem importância! Vai de conhaque?
A busca por alguma ajuda no poço fundo da memória é em
vão, mas agora tinha certeza de que estava diante de alguém que conhecia. No
passado conhaque era sua primeira escolha.
- Não bebo mais conhaque. Tem uns vinte anos que não bebo
conhaque; me traz uma vodca!
A dose é generosa. Jack fica quase feliz de repente! Olha
o homem do outro lado do balcão. Mais ou menos cinquenta anos, cinquenta e
cinco? Mas no rosto, nenhum traço familiar.
- Tinha você, o Monteiro, o Milton, o Hélio, o Paulo, um
outro, que eu não me lembro o nome, bem mais velho, um escuro, que era
motorista e não bebia...
- O mais velho era o Salles, estava se aposentando, o
motorista era o Fernando...- Jack é assolado de repente por uma ternura
nostálgica.
- Isso, Salles! Bebia uma e pegava o taxi! Que ano foi
isso!
- sei lá, década de 60. O Salles morreu logo depois que saiu
do jornal.
- Faz tempo, a gente ainda era moço.
- Mais de vinte anos.
Outra vodca, tão generosa quanto, aterrisa no balcão.
- Você tá trabalhando no O Friburguense, vi o nome numa
reportagem! Como é que você veio parar em Friburgo?
- E você, como é que veio parar aqui na Serra? – Jack,
prefere dar um tempo, evitando falar nos motivos que o tinham levado a
trabalhar em Nova Friburgo, por menos da metade do que recebia no último jornal,
no Rio. De onde tinha saído, depois de um acordo para evitar a chamada demissão
por justa causa.
A passagem por três redações de jornais, de onde acabava
saindo por conta da bebida, era a causa de ter aceito o trabalho na cidade, mas
o dono do Maiorca não precisava saber.Pelo menos por enquanto.
O homem, que no passado distante servia conhaque num bar
da Rua de Santana esquina com Avenida Presidente Vargas, pouco se importa com o
recuo.
Talvez porque esteja ansioso para revelar sua história, a
história de como havia chegado a Friburgo desde os encontros de todas as noites,
nas mesmas condições, no bar do Centro do Rio.
Era uma história simples, normal, como tantas, nas vidas
dos moradores dos subúrbios do Rio. Jack podia imaginar uma infância sem maiores proezas do que crescer
soltando pipa na rua, peladas num terreno baldio, ensino fundamental mal
concluído numa escola pública porque precisava ajudar o pai.
- Briguei com meu pai quando tinha uns vinte e cinco,
vinte e seis anos e saí pra montar meu próprio negócio.
Inicialmente um
restaurante, que não deu certo e acabou virando botequim. Dois ou três anos depois a compra de um bar,melhorzinho,
numa rua no bairro de Ramos, “coisa pequena também.” O casamento com a mulher,
de família friburguense, que dava duro na limpeza do bar à noite, quando ele
estava morto de cansaço.
Tudo bem, a família morando de aluguel na mesma rua até o
dia do assalto. O dinheiro do caixa era pouco e nem foi levado, mas na saída,
sem motivo aparente um freguês solitário levou dois tiros, um na cabeça outro
no peito!
- O freguês morreu na hora, veio a PM, juntou uma
multidão na porta, a mulher teve uma crise de nervos, “que não queria mais
ficar ali! que tinham que ir embora e não se conformava! Que se ele não
quisesse ia sozinha! Que como é que a gente pode viver num lugar em que se mata
uma pessoa assim, na frente de todo mundo, às seis horas da noite!”
- Não foi um tempo ruim ali em Ramos. Abria o bar bem
cedinho pro café do pessoal das fábricas e do comércio e estava até ganhando um
dinheirinho.
Mas depois da morte no bar vieram as consequências:
várias idas à delegacia, maltratado por escrivãos mal educados, querendo saber
o que ele não sabia, um policial aparecendo à noite no bar, querendo bebida de
graça.
E a mulher insistindo, falando muito, implicando muito,
dizendo que ia embora, que ia embora com a criança!.
- Vendi o bar, que tinha um cara já de olho, vendi até
bem e comprei esse aqui. Por causa da família dela; depois comprei o sobrado.
Divido com uma cunhada dela que mora no quarto dos fundos e de vez em quando
paga aluguel. Mais uma?
Jack faz um sinal que sim, quer mais uma.
A terceira vodca desce ainda mais suave, enquanto imagina
uma história para justificar porque estava ali, trabalhando num pequeno jornal de
Nova Friburgo, ganhando menos da metade do salário no Rio, morando num apartamento
emprestado pelo dono do jornal, um antigo colega de redação há muito aposentado.
Pergunta se o banheiro é nos fundos.
O local é até limpo para padrões “botequim pé sujo.” Um
limão galego cortado, faz as vezes de desodorante, mas não há tábua na privada nem toalha de papel.
Apenas um resto de sabão de côco que escorrega da lateral da pia para o
chão.Não dá a mínima.Volta para o balcão com as mãos molhadas e um pano
encardido sai do ombro do dono da bar para o providencial enxugamento.
- E você Jack como é que veio parar em Friburgo?
A pergunta, uma insistência já esperada, não chega a incomodar.
Até porque o homem por trás do balcão, contrariando dispositivos, regras e
coisa e tal, tinha bebido uma cachaça “produzida na região”, e estava mais a vontade.
- Nada de importante, o problema é que eu nunca morri de
amores pela chamada linha editorial de nenhum dos jornais onde trabalhei. Todos
apoiadores da Ditadura Militar e eu não gostava da maneira como a direção...Bom,
isso não tem nada a ver. O caso é que, de repente você escreve alguma coisa que
a chefia de reportagem não gosta porque está fora da linha do jornal. Você pensa que
está fazendo o seu trabalho, mas a matéria ou o parágrafo dentro da matéria está
fora da linha do jornal. Passa o tempo e um dia você, meio chapado, vai até a
sala do editor-chefe e defende o teu ponto de vista. Insiste, porque a
matéria deu um trabalho enorme e acabou
não sendo foi publicada, essas coisas...
- Você largou o emprego só por isso?
- Não larguei. Dias depois quando eu estava colocando o
paletó nas costas da cadeira, o chefe da reportagem disse que eu, no dia
seguinte, fosse direto para o Departamento de Pessoal, o RH de hoje.
Era só meia verdade. Não tinha sido o texto, ou o
parágrafo, mas o cheiro do conhaque.
No episódio da primeira demissão Jack já estava cansado
de saber que jornais refletem os interesses de seus anunciantes, e anunciantes são
empresários conservadores, muitos deles naquela época, apoiadores da Ditadura
Militar.
Gente que ele, Jack, podia detestar desde os tempos de
faculdade, mas que faziam parte da vida, do seu dia a dia, do emprego, do
motivo para sair de casa pela manhã.
Sabia também que sua posição, as vezes expressa em
discussões meio sem sentido na redação, podia até ser tolerada por editores e chefes de reportagem
que, em geral gostavam das matérias produzidas por ele. E sabia também que, matérias
que não estão de acordo com a linha editorial nunca chegam às páginas. Ou nunca
vão ao ar, no caso das TVs.
- Isso foi no tempo da Ditadura e depois?
- A ditadura militar acabou, mas as coisas não mudaram
tanto assim. A gente é mais ingênuo do que pensa aos trinta anos. Alguns de nós, repórteres com
experiência nos anos de chumbo, esperávamos, ou sonhávamos com uma nova postura
do jornalismo diante da nova realidade. Pautas melhores, você, apurando e
escrevendo sobre assuntos que a Ditadura não permitia, numa espécie de doa a
quem doer, que era impossível claro...Desce mais uma aí parceiro!
- Isso te incomodava?
No fundo o papo era apenas para impressionar o
respeitável público, sendo esse respeitável público apenas um dono de bar de
quem ele nem o nome sabia. Sempre soube que o chamado jornalismo investigativo
só funcionava dentro dos parâmetros da linha do jornal. A descoberta de um
grande caso de corrupção passava primeiro pelo crivo da chefia e coisa e tal.
Mas estava ali para impressionar o dono do bar, passando o tempo antes do sono.
- Isso te incomodava,mesmo?
- Claro, teve o caso de um chefe de polícia,ou secretário
de segurança, não me lembro como o cara era chamado na época. O negócio é que o
ocupante do cargo era um general e o general, segundo um policial que não
gostava dele, tinha aceito um belo cheque pra deixar o jogo do bicho correr
mais ou menos solto em todo o estado do Rio de Janeiro. Já corria, é claro, mas o general tinha
ameaçado proibir e coisa e tal, No embalo a coisa vazou e um deputado estadual
se dispôs falar sobre o caso. Contar o que sabia sobre o cheque dos
bicheiros...
Um homem de terno, perfumado, entre no bar, pede dois
maços, mas o cigarro que ele quer acabou. Faz um gesto de aborrecimento, nem
olha para Jack e volta para o carro, parado na porta do Maiorca, onde há um
ponto de ônibus e é proibido parar.
- E então?.
- Ouvi o deputado, era um cara da oposição, mas muito bem
informado sobre as merdas do governo. Mas pra seguir com a matéria, eu tinha
que falar diretamente com o general. Então pedi ajuda ao chefe da reportagem,
um cara de quem eu até gostava e que conhecia melhor do que eu os atalhos, os
telefones de gabinete do homem.
Jack faz um gesto estudado, bebendo um gole profundo da
vodca.
- O caso é que, mesmo sem antes falar comigo, ele levou o
caso, ao editor-chefe do jornal.
Toca o telefone, o dono do Maiorca atende e parece
irritado com o que ouve do outro da linha. Dá um “to ocupado agora” e bate o
telefone.
- Porra, minha mulher querendo saber onde estão os papeis
do inventário do meu pai. Eu e minha irmã estamos querendo vender o bar dele lá
em Vila Valqueire! É uma loja nova, num prédio novo, deve valer alguma coisa.
Eu te interrompi...
- Bom, fui chamado à sala do editor-chefe pra explicar
que porra de pauta era aquela?! Quem tinha mandado fazer matéria sobre o chefe
de polícia e coisa e tal. Minha reação, foi uma surpresa até pra mim mesmo.
Defendi minha pauta, enfrentei o editor-chefe e acabei irritado, aos berros, a
ponto do cara ameaçar chamar os seguranças. Dois minutos depois estava sentado
no bar mais próximo enchendo a cara. Resumo da ópera: pedi demissão depois de
sumir durante uma semana.
Jack não conseguia lembrar da reação real ao esporro do
chefe da reportagem mais de trinta anos depois. Até porque tinha invertido a
ordem: primeiro o bar depois a aporrinhação. Mas lembrava de ter jogado as
laudas no chão, ter dado meia volta e saído em dizer nada.
Nessa época já começava a se sentir desconfortável com o trabalho
e, aos poucos ia odiando mais e mais a profissão.
Depois da segunda demissão, tinha trabalhado alguns meses
como assessor de imprensa em uma autarquia do governo federal. Um emprego quase
informal – recebia em dinheiro, na boca do caixa, o Banco do outro lado da rua.
Mas, ali a ociosidade era o caminho mais fácil para o
botequim. Passava o dia lendo jornais, algumas revistas, procurando matérias
que mencionassem alguma coisa relacionada com a autarquia. E descendo para
beber a cada meia hora.
Um dia, antes de se despedir dos colegas, a caminho de
casa, voltando do botequim, acabou caindo na calçada a poucos metros do prédio
da autarquia.
Levado para o Hospital Souza Aguiar, no dia seguinte,
curado por uma injeção de glicose, teve que ouvir o “sinto muito, não dá mais”,
da boca do amigo repórter, responsável por
aquele emprego.
Então, depois de três ou quatro meses parado, o dinheiro no
banco chegando ao fim, precisou recomeçar, perambulando pelas redações,
procurando velhos amigos, tendo que dizer que a bebida era coisa do passado e
coisa e tal.
- E em casa? A família?
- Morava sozinho nessa época, já estava há muito tempo
separado da mulher, saia com uma garota dez anos mais nova, meio hippie. Que de
vez em quando me levava uma nota, mas tudo bem.
A luz do Maiorca dá uma claudicada, ameaça apagar,o dono do boteco xinga, diz que a concessionária
é uma merda, que esses picos de luz queimam a geladeira, mas tudo volta ao
normal.
O que é que estava falando, mesmo?
- Da garota que te levava uma nota.
- Sei... Marli, mas o que é que a Marli tem com a
história?
- Bom, antes você disse que estava procurando emprego. De
novo.
- É isso mesmo, num desses périplos, aceitei a mudança trabalhar
na editoria de polícia. Achei bom. Pelo menos ali não havia espaço para
conflitos pessoais. Na,polícia só tem espaço para coisas como desastre,
incêndio, prisão de bandidos mais ou menos conhecidos da mídia, contrabando
apreendido num navio com bandeira da Libéria, um ricaço, pego enchendo a mulher
de porrada, ou funcionário público de alto escalão, bêbado dando tiros na rua. Desde
então nunca mais parei de fazer polícia.
Música sertaneja irrompe no silêncio na Maiorca. O dono
bar pega o celular em cima da geladeira; desliga.
- É pra me lembrar que essa é a hora de fechar o bar. Mas
esquece, a conversa tá muito boa.
- Uma vez eu fiz um plantão meio estranho, na porta de um
motel, para que o fotógrafo flagrasse um empresário conhecido saindo de lá com
um rapaz. A matéria não foi publicada, mas a TV do grupo mostrou o fragrante no
jornal da noite. Eu nunca entendi.
A vodca, quinta ou sexta fica diante dele no balcão. Jack
sabe que o efeito agora é uma quase euforia que se sobrepõe ao cansaço e quer
continuar falando.
- De resto o trabalho diário da reportagem policial é
voltado para o que acontece em favelas, ou subúrbios mais pobres, onde gente
inocente morre em trocas de tiros, onde a PM invade barracos para prender
pequenos, traficantes, aviões do tráfico, frequentadores de bocas de fumo e vai
por aí. As brigas entre desafetos pobres, nas portas dos botequins, um “pé
inchado” esfaqueando outro, nunca vão para as páginas de jornais impressos ou
televisivos.
Uma jovem mulher entra no bar, trazendo pela mão uma
menina. A mãe, ou pelo menos é o que Jack supõe, pede dois cigarros a varejo, cata
na bolsa algumas moedinhas, contadas uma a uma pelo dono do bar. Jack faz um
sinal de adeus para a criança, ela responde com um sorriso encolhido. A mulher
sorri também e ganha a calçada em direção aos pontos de ônibus da Praça Getúlio
Vargas.
- Um vez, faz tempo, agora já não sei se foi no primeiro
oun no segundo jornal, eu quase fui mandado embora, por uma matéria que, essa
sim, chegou nas bancas. Era uma visita pastoral do cardeal arcebispo do Rio de
Janeiro. O texto saiu sem que nem o copy desk, o cara que dá um trato na
matéria, antes dela ir pra página, corta,aumenta com dados da pesquisa e coisa
e tal, e nem o editor, que em geral também dá uma olhada percebessem. No dia seguinte o dono do jornal
leu na página cinco que seu amigo,o cardeal arcebispo, tinha desprezado os
moradores da favela da Mangueira e ido embora, sem saltar do carro, incomodado
com o cheiro de uma vala negra... Deu merda, o porra do cardeal telefonou puto
dentro das calças, no caso dentro da batina!
A luz do bar parece de novo tremer um pouco. Problemas
com a concessionária de energia ou a vodca fazendo efeito?
- Se ninguém viu, quero dizer, os caras que estavam acima,
não viram, Qual era a tua culpa?
- Foi por isso que a coisa ficou só numa advertência. O
editor, era um cara bem jovem que gostava do que eu escrevia, confiava em mim,
e por isso não leu o texto maldito. Era um garoto de família rica, formado na
Pontífícia Universidade Católica, também não foi demitido, mas acabou mandado
fazer o mesmo o mesmo serviço numa revista de modas do grupo...
O homem usando um paletó azul escuro encardido, uma havaiana
no pé esquerdo, levando alguma coisa embrulhada num pano chega no balcão. O
dono do bar serve uma cachaça o homem bebe de uma vez começa a catar moedas no
bolso da calça. Paga e sai
- Porque a
história do cardeal provocou quase encrenca a tua vida ? Não era verdade o que você escreveu? Vai mais uma? Você ainda
é aquele cara que nada te derruba?
- A verdade é que jornalismo
não importa muito nessas horas . O que
importa é a política do jornal, ou a maneira como a notícia sai. Ou não sai. Às
vezes a política do jornal, o interesse dos donos do jornal determinam o que, vai
ou não para as páginas. E olha só: não sou mais aquele cara que nenhuma bebida
derruba, mas estou morando aqui perto; não preciso de um táxi pra voltar pra
casa.
O mendigo retorna pede outra cachaça, mas o dono do bar
diz que ele tem que primeiro mostrar o dinheiro. O homem mexe nos bolso, mas o
que sai é uma moeda que não dá pra pagar a bebida.
- Bota a cachaça dele na minha conta e desce a penúltima,
por favor.
A história real, que Jack ia deixando de lado ali, naquele
bar vazio de Nova Friburgo é que há muito tempo, não suportava o dia a dia do jornalismo, a tensão, o
interlocutor que promete contar tudo, mas que desaparece a mando do advogado, a
matéria que cai porque outra de maior interesse entrou na página, a pauta que
não foi cumprida porque o carro de reportagem estava com outro repórter que se
atrasou e ele não conseguiu um táxi, às seis horas da tarde no centro, para
checar porque o gás da distribuídos não
estava chegando aos clientes de Laranjeiras.
Não tinha mais a menor vontade a menor paciência, mas não
saberia fazer outra coisa Já não ligava
mais, para o conservadorismo da linha dos jornais e nem para editoriais conservadores,
que acabava lendo, pela manhã, para ver se suas matérias haviam sido
publicadas.
Em um momento de quase desespero, o dinheiro da indenização
acabando, o crédito cortado na maior parte dos bares próximos de casa, tinha
encontrado um ex-colega de redação. Talvez a aparência, seu estado geral,
quando se olhava no espelho pela manhã era péssimo, tenha despertado a velha
solidariedade do ex-repórter, agora proprietário de o Friburguense, que tinha
feito o convite para trabalhar naquela cidade.
- O salário é metade do que você recebia, mas a vida no
interior é mais barata, você vai ver. E pode deixar teu carro na estacionamento
de meu prédio, eu tenho direito a duas vagas.
A voz ainda, soava no ouvido enquanto subia a serra, o
tanque ameaçando secar no meio do caminho.
E agora, entrando pela primeira vez no bar Maiorca,
bebendo com uma parte do passado, não tinha ilusões sobre como aquele capítulo
da vida ia terminar.
Provavelmente como os anteriores.
O homem sentado no fundo, faz sinal, e a conversa é
interrompida. O homem resmunga alguma coisa. O dono do bar, volta.
- É um cara legal, mas fica bêbado toda noite e, se tomar
mais uma não vai conseguir pegar o ônibus... Você não se lembra, mas o meu nome
é Silas.
Bêbados e garçons,
donos de bares & assemelhados costumam se entender sem necessidade de
palavras e até nomes que interrompam narrativas: um copo lavado, com mais uma
dose de vodca é colocado diante de Jack.
- Você cobriu aquele caso da morte da Luz de Fuego?
- Faz muito tempo,
né? Eu participei,a história rendeu várias matérias, Ela foi morta numa ilha no
meio da Baia de Guanabara, o assassino...