Visite Também

Visite também o Conexão Serrana.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Conservadores substituem idiotas e bola pra frente



Quanto mais durar a sangria de Jair Bolsonaro, maiores serão as chances do próximo governo adotar posturas tão ou ainda mais progressistas do que as administrações de Lula e Dilma. É uma afirmação que parece destoante, mas talvez se aproxime mais da realidade dos dias de hoje do que pensam alguns colunistas de plantão nas redações.

Isso porque a classe dominante, empresários, grandes acionistas, executivos de multinacionais, banqueiros, rentistas & assemelhados não está nada satisfeita com o desempenho do ex-capitão e seu grupo.

Bolsonaro foi, logo de cara, olhado com certa relutância por essa rapaziada, depois que seu candidato, Geraldo Alckmin, revelou-se um fiasco nas eleições de 2018. A classe acabou tendo que engolir o sapo.

As coisas pareceram melhorar quando Bolsonaro acenou com uma reforma da Previdência que joga sobre os ombros da população mais pobre a solução para o gigantesco déficit orçamentário do governo. A classe dominante adorou.

Mas Bolsonaro não vai poder cumprir o que prometeu. E a elite do poder já sabe disso.

A alternativa Mourão está posta e o presidente e seus filhos começam a ver que seus amigos da primeira hora já estão pulando do barco.

Para o povão, que acreditou na promessa de extinção da bandidagem através de uma política de western spaghetti “atiro primeiro, pergunto depois”, a constatação é ainda mais dolorosa.

Os criminosos que transformam suas vidas em inferno diário não reduziram sua atividade, apesar da presença do exército nas ruas, e a polícia passou a bater recordes de homicídios em favelas e bairros pobres da periferia das grandes cidades. Os números foram divulgados essa semana pela Rede Globo.

Assaltos a caixas eletrônicos e a caminhões de carga seguem crescentes nas estatísticas apesar de pantomimas como a do governador do estado do Rio de Janeiro Wilson Witzel mostrado na TV a bordo de um helicóptero da polícia durante um tiroteio com mortes na favela da Maré.

A corrupção, mote usado desde os anos 40 para justificar golpes de estado na América Latina, e a chamada Operação Lava Jato começam a se voltar contra seus propagandistas. As ligações perigosas do clã dos filhos do presidente com as milícias do Rio estão na ordem do dia.

Resta saber quem está apoiando os policiais e procuradores que investigam Flávio Bolsonaro, Queiroz & assemelhados.

Enquanto o povão assiste um pouco atordoado ao desmoronamento do governo, movimentos estudantis, operários, artistas, intelectuais, funcionalismo público e outras categorias, iniciam o processo de recuperação, após um longo período de dormência, e se preparam para confrontar o poder, num cenário em que o presidente da república vai ficando a cada dia mais isolado.

Isso porque, a constatação é clara: Bolsonaro com suas extremas limitações acreditou que governar era extinguir todo e qualquer movimento que confrontasse sua índole fascitoide, fazendo dele uma espécie de paladino de uma estranha “democracia”, em que escolas são militarizadas, desaparece o ensino de Ciências Humanas, muda radicalmente a postura da defesa do meio ambiente, gays são exorcizados, negros e mulatos são posicionados “em seus lugares” e vai por aí que a lista é longa.

Sobre o racismo ver na Internet o vídeo “as 17 vezes em que Bolsonaro foi Bolsonaro”.

Nesse capítulo, é interessante constatar como o ex-capitão fica próximo em propostas e atitudes do norte coreano Kim Jung Un, comunista que para o ideário bolsonariano é a suprema expressão do mal.

Se Bolsonaro for trocado por Mourão na próxima semana ou daqui a um mês, a agenda conservadora será retomada. Mourão vai substituir os idiotas de Bolsonaro por nomes do PSDB com alguma credibilidade na praça e a bola será tocada pra frente sem maiores problemas.


terça-feira, 14 de maio de 2019

Se Bolsonaro cair já...




Se Jair Bolsonaro cair nas próximas semanas os esforços de setores progressistas, esquerdistas, liberais arrependidos & assemelhados, que planejam o Brasil sem bolsonarismos, será um tanto esvaziado.

Isso porque cairá um presidente que vai sendo visto por grande parte da mídia, políticos à direita, e a maior parte da classe dominante como alguém totalmente incapacitado para ocupar o cargo.

O ex-deputado, que foi eleito com milhões de votos das populações mais pobres com a promessa de exterminar com a bandidagem, sempre teve em mente que bastava extinguir, sindicatos, ONGs, organizações estudantis e correlatos para que o Brasil fosse salvo dos esquerdistas e ingressasse numa gloriosa era de crescimento, com escolas militarizadas, homossexuais “curados” ou banidos, pardos e pretos no seu lugar.

Não deu muito certo. Bolsonaro obviamente não pode fazer nada contra traficantes e milicianos num contexto em que há 13 milhões de desempregados e não sabemos quantos a caminho do mesmo destino.

A presença do exército nas ruas do Rio mostrou a seus eleitores dos subúrbios e periferias que promessas desse naipe também não podem ser cumpridas, com simples entrega de armas a setores de classe média que vivem sob ameaça da bandidagem.

Bolsonaro não tem a menor ideia de que grande parte dos homicídios (que nunca aparecem nos jornais e TVs) acontece entre pessoas que se conhecem, em brigas de trânsito, no botequim, envolvendo vizinhos, marido e mulher & correlatos. Distribuir armas é potencializar o problema.

No embalo dos cem dias, o ex-capitão parece querer descartar-se rapidamente do que seriam suas bases de poder. É possível que, permitindo ataques a oficiais do exército com liderança entre seus pares, o presidente esteja simplesmente externando mágoas antigas do tempo em que foi devidamente defenestrado dos quartéis, após uma tentativa de envolver o exercito em ações terroristas.

Bolsonaro também está fritando o principal responsável por sua eleição. O juiz Moro, que se encarregou formalmente, de impedir que Luiz Inácio Lula da Silva fosse candidato em 2018, vai sendo posto de lado rapidamente, sem que até agora os analistas de plantão saibam exatamente por quê. Alguns desses analistas de plantão acham que Moro tem pretensões à presidência, mas é pouco provável.

Se o governo do ex-capitão caminhar celeremente para o brejo, como indicam as derrotas já ocorridas e prenunciadas, (vem aí a derrubada do decreto das armas) teremos em sucessão: 1) o reconhecimento dos filhos do presidente (e dele próprio) como participes dos grupos de milicianos que assolam a periferia do Rio de Janeiro; 2) tornados réus, o próprio Bolsonaro acabará sendo indiciado e rapidamente removido do poder; com amplo apoio das Forças Armadas e da classe dominante. O general Mourão toma posse.

É bom não sentir muito alívio. Mourão, que tem produzido um discurso civilizado para agradar setores políticos como o PSDB, não muda a orientação em política econômica. Deve apenas mandar ministros com pouca instrução para casa e, quem sabe, outros para o manicômio.

Com Mourão no poder, é bom lembrar, será infinitamente mais fácil aprovar no Congresso medidas como a reforma da Previdência e outras do ideário neoliberal.

É bom não esquecer que o vice-presidente é golpista. Já disse claramente que é favorável a tomada do poder pelos militares em caso de ameaça de um retorno “à situação anterior”. Disse também que 13º salário é jabuticaba e que tem pena dos empresários que pensam em investir no Brasil porque pagam muitos impostos, etc, etc.

Mourão terá apoio sólido de grupos militares e está longe de ser idiota.

Uma permanência mais longa de Bolsonaro no poder, ao contrário do que se possa pensar, pode dificultar eventuais tentativas de golpe quando das próximas eleições.

Isso porque à medida que o ex-capitão vai sendo abalado por sua total incapacidade de governar, movimentos de operários, estudantes, ambientalistas, intelectuais, artistas, políticos, periferia e classe média vão se organizando no sentido de virar o jogo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

As lorotas da reforma




Pois é. O IBOPE pesquisou esses dias a reação do respeitável público sobre a reforma da Previdência. Os resultados mostrados no G1, site das Organizações Globo, são digamos... um tanto confusos!

O G1, que defende galhardamente a extinção das aposentadorias, abriu manchete clamando que 59% dos entrevistados concordam com a reforma proposta por Bolsonaro & asseclas, contra 36% dos que não querem saber de mudanças no que diz respeito a seu futuro.

A rapaziada das Organizações Globo pode interpretar os resultados a seu modo, mas a continuidade na leitura da pesquisa mostra que a coisa não é bem assim.

É verdade que o governo - que aposta, como sempre, na

informação truncada - vai plantar suas lorotas sobre a reforma 

em terreno fértil: segundo o IBOPE, só 30% conhecem os 

principais pontos; 31% não conhecem o conteúdo; 23%; nem 

sabem que o governo apresentou a proposta e 10% não sabem 

ou não responderam a pergunta.

Mas é preciso jogar um pouco de luz sobre os dados do IBOPE.

Por exemplo, quando se lê que a maior parte dos entrevistados (72%) se diz favorável ao estabelecimento de uma idade mínima para as aposentadorias e só 23% são contrários é preciso analisar o que é idade mínima desejável para o respeitável público.

Isso porque entre esses 72% de apoiadores, 33% acreditam que a idade mínima para a aposentadoria deve ficar entre 56 (mulheres) e 60 anos (homens). A proposta do governo é fixar essas datas entre 62 anos e 65 anos respectivamente.

Vinte e cinco por cento dos entrevistados vão mais longe: querem que a idade mínima fique entre 51 e 55 anos e 22% acreditam que todo mundo já deve poder ir pra casa aos 51. Ou seja, as pessoas apoiam a reforma desde que possam se aposentar antes de envelhecerem muito.

A chamada classe dominante, banqueiros principalmente, já pode ficar um pouco preocupada com os rumos da mudança nas aposentadorias. Mesmo com a enxurrada de matérias nas TVs que vem por aí, é possível que o respeitável publico conclua sabiamente que está sendo enganado.








quinta-feira, 2 de maio de 2019

Bolsonaro ainda não subiu no telhado, mas...



Parte da classe média com nível universitário está surpresa com o prometido corte de 30% nas verbas para universidades federais. Não devia. O candidato que apoiou, depois da derrota de Alckmin no primeiro turno, ano passado, é isso aí.

Será que essa classe média, que tem pretensões de ver seus filhos cursando uma faculdade pública, não sabia que educação e cultura nunca entrariam na pauta do atual presidente? Ou podia desconfiar, mas achava que talvez a coisa não fosse tão feia quanto parece agora?

 Num mundo em que cérebros privilegiados são disputados por grandes corporações, universidades e até governos, Bolsonaro e sua rapaziada enxergam inteligência, cultura, formação universitária, como atributos mixurucas de esquerdistas com alta periculosidade.

O capitão, que não faz a menor ideia do que acontece durante um curso de filosofia ou sociologia, tem certeza de que Sócrates, Platão, Aristóteles, Emile Durkheim e C. Wright Mills são meras criações de professores e alunos com viés esquerdista.

Bolsonaro já disse, para câmeras e microfones, que a presidência da república não é exatamente a sua praia, mas infelizmente para o presidente, o país ainda não pode ser transformado num quartel do exército.

Já na campanha, o capitão Jair tinha um plano e dele parece não abrir mão depois de eleito: esmagar todo e qualquer movimento reivindicatório existente no país. De sindicatos a ONGs, passando por Uniões Estudantis, de Sem Terra, Sem Teto, Clubes de Leitura, Grêmios de secundaristas e o que porventura mais exista no gênero. E só. Feito esse trabalho, governança é um item secundário.

Bolsonaro também disse que ia pôr um fim na política do toma lá dá cá, mas na esteira de sua eleição veio à tona o que de pior pode acontecer na política partidária. Deputados e senadores do PSL, chegados ao Congresso através do bolsonarismo, desejosos de colher vantagens em troca de votos no plenário, são um problema duro de superar.

Até mesmo no caso da aprovação da reforma da Previdência. Afinal, deputados e senadores dependem de votos e a reforma não é exatamente popular quanto quer fazer parecer ao respeitável público a Rede Globo de Televisão.

Bolsonaro diz que vai atender às demandas através de emendas constitucionais, mas a turma do “cadê o meu” não parece aprovar a solução.

Que o Brasil compartilha com nações como o Congo, Namíbia, Botsuana, República Centro Africana, Lesoto, Suazilândia e outros menos votados o gosto pela desigualdade, todo mundo sabe. Somos o décimo colocado nesse ranking. O problema é que desigualdade é, ao mesmo tempo, causa e efeito da depressão na economia.

Com o dinheiro cada vez mais concentrado no um por cento da população, não há consumo; sem consumo o comércio fica às moscas, as fábricas fecham suas portas, o desemprego continua crescendo e a economia, como um todo, segue no embalo ladeira abaixo.

É bom lembrar que a reforma trabalhista não criou as vagas no mercado que o governo esperava. Aliás, a precarização do trabalho não surtiu o menor efeito, segundo as recentes pesquisas do IBGE. Então, o aumento da crise é questão de tempo.

É possível imaginar, para dentro de um prazo relativamente curto, o retorno do clima de greves. Primeiro tímidas, depois tomando corpo.

É também provável o retorno das grandes passeatas tipo “Diretas Já”, isolando o governo, intimidando o Congresso e o Judiciário.

Talvez essa iniciativa da classe média possa evitar, mais adiante, a concretização de seu pior pesadelo: a presença nas ruas da população de favelas e periferia, saqueando supermercados, queimando ônibus,  prédios públicos e confrontando a polícia.

(É bom lembrar que alguns eleitores do capitão, nas chamadas comunidades, votaram na promessa de que traficantes, milicianos, ladrões, estelionatários & assemelhados seriam extirpados de suas vidas. E começam a ver que, pelo contrário, a bandidagem continua se fortalecendo).

Nessa altura do campeonato, empresários, rentistas, executivos de multinacionais, banqueiros, a chamada classe dominante, já devem estar conspirando para que o poder mude de mãos.

É provável também que bolsonaristas de ontem comecem a mudar de lado, a rapaziada do PSDB & Centrão inicie uma cruzada por democracia, fora Bolsonaro, e o presidente acabe, como é de praxe, no banco dos réus.

O fascismo no Brasil pode durar dois ou três anos, mas não vai além disso.

terça-feira, 9 de abril de 2019

A teoria furada do crescimento do bolo






Deu no Estadão de sábado:

Na festinha de aniversário da chinesa Alibaba, poucos convidados são do ocidente. A dona da AliExpress chega aos 20 anos hoje empenhada em crescer no varejo do seu próprio país e de nações vizinhas.  Fora desses mercados, os investimentos da gigante de tecnologia são mais pontuais e diversificados: bicicletas, inteligência artificial, carros elétricos e até produção de filmes. (...) Boa parte dos esforços está concentrada em alimentar toda a cadeia do varejo chinês – de serviços de logística a gerenciamento de estoques. A Ant Financial, por exemplo, surgiu como uma forma de ajudar no funcionamento do sistema de pagamentos do país e hoje possui um bilhão de usuários ativos. Já o Taobao, site de vendas feitas exclusivamente para a China, já é o maior e-commerce do mundo (...) E a gigante ainda tem espaço para crescer, já que o varejo da China deve avançar 7,5% este ano, ante os 3,5% nos Estados Unidos, segundo a consultoria eMarketer.

Pois é. No mercado chinês, o protagonista é o consumidor... chinês! Ao contrário do que acontece no Brasil, os governantes chineses têm como prioridade manter aquecido seu mercado interno. Que gira em torno de um bilhão de consumidores.

O mercado se mantém aquecido porque os governantes chineses apostaram na incorporação de massas de trabalhadores rurais, vivendo na linha de pobreza, a um relativamente novo e gigantesco segmento urbano com enorme capacidade de compra/consumo.

Foi o necessário para os avanços da economia chinesa nos últimos tempos, com crescimento em torno de 6, 7.5% ao ano. A Alibaba nem precisa sair pelo mundo à procura de compradores para seu gigantesco portfólio. Trabalhar o mercado interno é suficiente para a empresa chegar a números astronômicos.

Enquanto a preocupação dos chineses é focada na incorporação de novos segmentos da população ao mercado, via aumento de salários, no Brasil a ideia do novo governo é seguir a idosa (e desastrosa) máxima do ex-ministro da Fazenda Antônio Delfim Neto, durante a ditadura. Naqueles tempos, segundo o ministro, “era preciso fazer o bolo crescer para então dividir”,

O bolo, é claro, não cresceu – uma população sem dinheiro não vai às compras, o mercado permanece estagnado, as indústrias trabalham a meia bomba, o comércio tem vendas também restritas, a busca por serviços diminui, o desemprego aumenta e vai por aí, no chamado círculo vicioso.

Embora sem o peso da ditadura, a economia continuou patinando. A queda da inflação durante o governo Itamar Franco até reduziu a pressão sobre os trabalhadores e a economia pareceu, por alguns meses, ganhar fôlego.

Mas a persistência das mesmas práticas acabou com o capital político de Fernando Henrique Cardoso. O PIB brasileiro (quem duvida é só dar uma olhadinha no Google) ficou no vergonhoso 15º lugar, segundo números do FMI, Banco Mundial e ONU.

No governo Lula a situação mudou. Surgiram programas que incentivaram o aumento da capacidade de consumo através do aumento real do salário mínimo, extensão do Bolsa Família, indução ao investimento em programas geradores de mão de obra, como a construção civil, e outras medidas com a mesma finalidade. Pela via do consumo, o PIB brasileiro passou de 15º a 7º (uma outra consulta ao Google  não faz mal a ninguém),

Os governos Dilma Rousseff (em meados do segundo mandato) e Temer retomaram as práticas conservadoras na economia. Bolsonaro, que já está tendo sérios problemas com sua incapacidade de gestão, (ele mesmo disse que nasceu para ser militar e não presidente da república) começa a seguir o caminho da vaquinha rumo ao brejo.

Então, quando o governo fala numa reforma de Previdência para aumentar a capacidade de investimento do Estado é preciso olhar a coisa com muitas reservas.

Em primeiro lugar, o Estado brasileiro está altamente endividado. A massa de dinheiro despendida para rolar essa dívida é que reduz sua capacidade de investimento e não o custo da aposentadoria dos velhinhos. Os juros altos para o pagamento desta dívida faz a alegria do sistema financeiro.

Em segundo lugar, com 13 milhões de desempregados e subempregados não há a mínima possibilidade de recuperação da capacidade de investimentos estatais, via aumento na arrecadação de impostos.

Enquanto procura uma saída para pagar as contas, fazendo com que pobres e classe média cheguem mais tarde aos benefícios da Previdência – o que implica em reduzir o mercado de trabalho para segmentos mais jovens em busca do primeiro emprego – a desigualdade – já identificada por 84% dos brasileiros como a causa de nossos problemas de crescimento, segundo pesquisa publicada nesse fim de semana pela Oxfam - é ignorada e a economia permanece patinando.

O lamentável é com uma população de 240 milhões, a quinta maior do mundo, a classe dominante brasileira não tenha a cultura dos chineses que, desde o século passado sabem que o crescimento da economia só é possível pela via de um mercado interno poderoso e que esse mercado só se faz poderoso pelo aumento da capacidade de compra da população.


terça-feira, 2 de abril de 2019

Trilobitas




É possível que as coisas comecem a se complicar já para o capitão Jair Bolsonaro. Isso porque em seus arroubos, o presidente eleito pode estar criando sérios problemas para a classe empresarial brasileira, basicamente os que têm seus negócios dependentes do mercado externo.

A tentativa de trocar a Organização Mundial do Comércio, OMC, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos, OCDE, a convite do presidente americano Donald Trump, pode adicionar mais problemas na já complicada nova política externa brasileira, afetando o comércio. O Brasil já tem participação na OCDE, como observador, mas esse não é o problema.

O problema é que, na tentativa de bajular os americanos, o governo negligencia sua presença na OMC, fórum normalmente utilizado para resolver pendengas no mercado internacional, onde é possível “falar de igual para igual" com outros participantes. (Já aconteceu e o país teve suas reclamações atendidas).

A OCDE é um clube de ricos onde a posição brasileira é (e será) de nenhuma importância. Se não fosse assim, o país já seria sócio-atleta da organização faz tempo.

Hoje pela manhã em entrevista à Globonews, os empresários manifestaram sua preocupação com os delírios do governo, nesse capítulo.

Na obsessão de demonstrar uma postura serviçal ao governo norte-americano, Bolsonaro vai enveredando por um viés ideológico, característico dos tempos de Guerra Fria, jogando na lata do lixo uma postura de neutralidade que caracterizava as posições do Brasil nos últimos 40 anos.

O presidente e seu séquito de seguidores com cérebro de trilobita não têm a menor ideia do que pode representar a ameaça de levar para Jerusalém a embaixada do Brasil em Israel. O comércio do Brasil com o país de Bibi Nethanyaho gira em torno de US$ 321 mil. Com os árabes a coisa toda vai a US$ 8 bilhões, principalmente carnes tratadas especialmente para consumo dos seguidores do Islã.

A brincadeira pode afetar uma parte do agronegócio que, como um todo, jogou suas fichas na eleição de Bolsonaro no segundo turno. (No primeiro, os ruralistas apostavam no candidato do PSDB).

Bolsonaro ainda não sabe, mas não tem cacife para enfrentar os interesses de banqueiros, rentistas, industriais e multinacionais. Se sair da linha terá o mesmo destino de Dilma Rousseff, seja lá qual for o pretexto para sua derrubada.

O presidente, é bom lembrar, está voltando às pressas de Israel, reduzindo em um dia sua visita ao país do muro das lamentações.

Na semana passada, o vice-presidente general Hamilton Mourão teve um encontro com 500 empresários. Mourão, que sonha diuturnamente com o palácio do Planalto, é a garantia de uma transferência de poder sem as turbulências que tanto assustam o mercado. Pelo contrário, um governo à direita, mas sem trilobitas no ministério e a volta de uma postura de neutralidade povoam os sonhos da classe dominante.

Por outro lado, esse pessoal pode ter esperanças de conseguir já uma reforma da Previdência mais a seu gosto, sem as encrencas previsíveis que se avizinham, graças ao total desinteresse do presidente em lidar com questões que não incluam o combate permanente às pautas que ele e seus trilobitas consideram esquerdizantes.

Mas é bom não inflar as esperanças. Saem os trilobitas, mas não mudam os rumos. 

PS. Saiu na Globonews agora: O Brasil caiu em 2018 da 26ª posição para o 27º lugar entre os maiores exportadores do mundo, segundo relatório anual divulgado nesta terça-feira (2) pela Organização Mundial do Comércio (OMC).   

Segundo a Wikipédia...  

...os trilobitas (português brasileiro) ou trilobites (português europeu) são artrópodes característicos do Paleozoico, conhecidos apenas do registro fóssil. O grupo, classificado na classe Trilobita da subclasse Trilobitomorpha, é exclusivo de ambientes marinhos. Os trilobitas possuíam um exoesqueleto de natureza quitinosa que, na zona dorsal, era impregnado de carbonato de cálcio, o que lhes permitiu deixar abundantes fósseis. Seu nome (trilobita) é devido à presença de três lobos que podem ser visualizados (na maior parte dos casos) em sua região dorsal (um central e dois laterais).



No seu começo, em 1947, a OCDE denominava-se Organização para a Cooperação Econômica (OECE) e era composta apenas por países europeus. Foi criada com a finalidade de executar o Plano Marshall, um plano financeiro concebido pelos Estados Unidos, para a reconstrução dos países da Europa devastados após a Segunda Guerra Mundial. Em 1960 os EUA e Canadá mostraram interesse em fazer parte da organização. Com a entrada em vigor de uma nova convenção assinada pelos países associados, em 30 de Setembro de 1961 nasceu oficialmente a OCDE.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Bolsonaro já subiu no telhado?


  

Do Brasil 247, matéria de Florestan Fernandes:

“Na próxima semana, (esta semana) a Fiesp reunirá em torno do vice-presidente, general Hamilton Mourão, 500 empresários que querem soluções rápidas para a crise de governabilidade instalada no Planalto. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirma em entrevista ao Estadão que o governo Bolsonaro é um deserto de ideias”.

Pois é. A possível queda do capitão pode já estar em andamento.

Talvez os desvarios do presidente eleito tenham produzido efeitos devastadores na expectativa da classe dominante. Banqueiros, agronegócio, rentistas, grandes industriais, executivos de multinacionais, que pretendiam colocar no Planalto alguém de sua inteira confiança, como Geraldo Alckmin, por exemplo, deram com os chamados burros n’água.

Não deu muito certo e quem sonhava com um político domesticado no poder, acabou tendo que se contentar com um projeto canhestro de um candidato que prometia simplesmente exterminar com qualquer coisa que cheirasse a comunismo, socialismo, direitos humanos, ecologia, defesa de terras indígenas e quilombos.

E só. Mas Bolsonaro talvez pudesse ainda ser usado para seus propósitos.

No primeiro momento deu certo. O capitão extinguiu os direitos dos trabalhadores, incluindo aí o próprio ministério do Trabalho. No embalo tenta, com algum sucesso, fazer o mesmo com os sindicatos.

A classe média, que é capaz de vender a alma para parecer que faz parte da classe dominante, aplaudiu entusiasticamente o que poderia ser uma opção pelos ricos.

Moradores de comunidades e afins, por sua vez, acreditaram que o candidato do PSL iria exterminar a bandidagem. Logo ele, vizinho e bem relacionado com um grupo poderoso de milicianos, apologista da posse de armas que, com certeza, vão ser usadas em brigas de vizinhos.

Bolsonaro se elegeu e a classe dominante teve, nos primeiros instantes a impressão que poderia conduzi-lo para seus interesses, mas o capitão mostrou que seus delírios só levam mesmo a riscos de sérios prejuízos.

Os homens do agronegócio, entusiastas da eleição do capitão reformado, já sentiram na pele o custo do engano.

É possível que outros segmentos da classe dominante já tenham compreendido que Bolsonaro não tem a menor noção do que é governar o Brasil.

Essa semana general Santos Cruz, secretário de Governo, bateu de frente com Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, ex-muçulmano agora católico, autodenominado filósofo, apesar de ter completado apenas o segundo grau. O guru chamou os militares de cagões.

Como a troca de Bolsonaro pelo general Hamilton Mourão não provoca o mínimo chilique nas roletas da Bolsa de Valores e o presidente parece ter muita dificuldade em aprovar a reforma da Previdência, é possível que o encontro do vice-presidente com a rapaziada da FIESP seja o pontapé inicial na derrubada do governo.

PS. Temer é solto por um desembargador que passou sete anos afastado do cargo por estelionato, segundo o Estadão. A Lava Jato vai reagir?