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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

 

Barbacena




- Me dá um cigarro? Voz engrolada, quase inaudível, suplicante. 

A resposta, um safanão, meio tapa, meio soco desajeitado. A porrada joga o rapaz, gemendo, no chão. Um gemido doído, baixo, conformado, como se a agressão fosse alguma coisa pela qual já esperasse. E não se importava. Talvez achasse que aquilo era só a sequência normal de outros socos, chutes e pauladas, que dois dias antes, tinham produzido ferimentos abertos, sangrando nas canelas inchadas e um olho desaparecido no arroxeado disforme, no lado direito do rosto, onde, um segundo antes, estivera pousada a mosca azul- metálico. O “olha pra mim seu puto!” vem a seguir, antes que consiga se interpor. 

Um tranco e Jack fica entre os dois, olhando dentro dos olhos do fotógrafo, a respiração acelerada... 

- Vai fazer merda aqui dentro? 

Nicácio baixa a rolleyflex, ele e Jack ficam se encarando, olho no olho, um ou dois infinitos segundos, até que o fotógrafo recue um passo e aponte de novo a câmera para o que deveria ser seu objetivo. Em silêncio.

- Então se segura, porra! – O repórter ouve sua própria voz ecoar na cela.

Rui Nicácio era bem mais velho. E tinha fama de não se segurar muito bem em situações como aquela. Era a primeira vez que trabalhavam juntos, mas havia antecedentes. 

Deu um refresco, olhou para fora: corredor estreito, uma porta aberta, a ponta da mesa do delegado. Ouviu vozes. Um sargento da polícia militar mineira estava no comando naquela madrugada fria e, aparentemente, não dera maior importância ao rápido bate-boca. 

O rapaz na cela da delegacia de Barbacena estava preso sob acusação de ter matado uma menina de dez anos, um crime que a polícia estava relacionando com outros, cometidos em circunstâncias parecidas: estupros seguidos de morte, as vítimas esfaqueadas inúmeras vezes. O encontro do corpo nu - cortes profundos no rosto, agora no necrotério - tinha traumatizado a cidade onde tudo estava acontecendo. 

Mas não tinham chegado a tempo de acompanhar a tentativa de invasão do posto de saúde, para onde o rapaz tinha sido levado, depois que uma guarnição da polícia civil de Belo Horizonte, que estava ali por acaso, conseguira evitar o linchamento.

A menina tinha sido morta dois dias antes, por volta das sete da manhã, num atalho que usava para chegar à escola. O criminoso, segundo vizinhos que já desconfiavam do comportamento do rapaz, tinha sido encontrado ainda com o sangue da vítima nas mãos, desmaiado, a poucos metros do local.

Jack tinha ficado mais ou menos impassível diante da choradeira da mãe que soubera, pela rádio local, da presença de jornalistas do Rio na cidade. A mulher caminhara duas horas até Barbacena, levando vidros e receitas médicas, tentando dizer que o filho era doente, não sabia o que fazia, “pelo amor de Deus, moço, não deixem que matem ele, podem até levar ele para um manicômio, mas ele não sabe o que faz quando fica nesse transe, mas nunca ameaçou ninguém, nunca magoou ninguém, só fica assim estrebuchando, depois cai em qualquer canto e custa muito a levantar”.

Agora, ali naquela cela, ouvindo os repentinos gritos de um preso com dores no estômago, está um pouco arrependido de não ter ouvido com mais atenção as palavras da mulher. E começa a achar que aquele rapaz de sandália havaiana no pé esquerdo – a outra com certeza perdida no quase linchamento – possivelmente é vítima do ódio cego, filho do medo dos moradores daquele fim de mundo, abalado, de repente, pelas mortes em série. Quem poderia saber se entre os algozes do rapaz não estava o verdadeiro assassino? 

Acha a frase razoável para um romance policial, vê a mãe aflita espiando lá do fim do corredor e pede ao policial que abra a cela. Nicácio guarda a câmera. A mulher espera por eles, ainda com as receitas e os vidros de remédio. Faz um sinal para que ela o acompanhe. 

Faz frio do lado de fora da delegacia e se arrepende de ter deixado o paletó no banco de trás do carro, estacionado do outro lado da praça por recomendação da polícia, onde o motorista dorme com os vidros fechados. O fotógrafo começa a tirar de novo a máquina de dentro da bolsa para bater outras fotos da mulher – as primeiras, antes de entrarem na cela, tinham sido feitas com visível má vontade. 

Suspira um pouco mais alto do que desejaria naquele silêncio de cidade do interior e resolve andar até o bar, onde os últimos curiosos estão bebendo cachaça, à espera de alguma novidade. A mãe do preso fica para trás, muda, remédios e receitas inúteis. Pára, faz um gesto pedindo que ela se aproxime. 

Começa a perguntar, agora calmo, qual era a doença do rapaz. As respostas atropeladas, entrecortadas por apelos (ele é doente, moço, mas nunca fez mal a ninguém, juro! passa muito mal, muito mal mesmo, quase morre, a gente tem que puxar a língua dele pra fora senão fica todo roxo!) agora produzem um efeito que ele acha indesejável, pelo menos para quem deveria se manter distante das emoções e carregar algumas doses de puro cinismo no bolso. Mas nem sempre se consegue. 

Sente-se mais fraco ainda quando vê que a mulher está com o outro pé da sandália e imagina um policial qualquer impedindo que ela o entregasse ao filho preso. A mulher continua falando. Anota e resolve que vai passar cada detalhe por telefone, para quem estiver de plantão na redação. E acha que talvez fique na cidade para tentar saber mais alguma coisa sobre aquelas mortes e o quase linchamento. Nesse momento, vê que porta do bar baixa, o barulho rompendo a noite silenciosa. 

Desperta, duas ou três horas mais tarde, com o barulho das rodas do trem e descobre que o quarto do hotel vagabundo está a meio metro da linha do cargueiro de minério que passa, vagaroso, provocando um terremoto. O copo, deixado na ponta da mesinha de cabeceira, cai no chão. 

Levanta, coloca o paletó. Está se sentindo sujo, mas o banheiro do hotel desencoraja o banho. Sai. Na portaria, o vigia noturno dorme na cadeira, o cobertor por cima do corpo, só a cabeça de fora. Abre a porta e vê que Nicácio vem atrás dele. Imagina que vai se aporrinhar. Mas o fotógrafo também sofre de insônia e só quer mesmo é contar sua história. 

Ex-jogador de futebol, clubes do interior paulista, antes de se tornar fotógrafo, tinha ralado um tempo no laboratório, revelando o trabalho dos outros e levando a tira de cópias em 35mm para que os editores pudessem escolher a que ia para a página. Nessas incursões na redação, tinha feito amizade com o pessoal do esporte – um ou outro repórter tinha ouvido falar na passagem dele pelo Botafogo de Ribeirão Preto – e com esse aval conseguira uma chance, primeiro fotografando treinos do meio de semana. Mais tarde, já dominando o uso das grandes angulares, passou a cobrir os jogos de fim de semana do gramado do Maracanã. 

Uma discussão com o editor de esportes, da qual tinha se arrependido e pedido desculpas, e fora remetido para o trabalho duro na editoria de polícia. Mas não se importava, queria continuar fotografando o resto da vida, se pudesse. A fama de encrenqueiro veio junto, “mas não era nada disso”. Bateu no ombro dele e apontou o botequim do outro lado da rua. A porta de aço de outro botequim estava sendo aberta pelo dono. 

- Vai de café?
- Não, mas quero te avisar de uma coisa: vamos ficar por aqui hoje, talvez amanhã.

A lua, cheia naquele amanhecer, ainda iluminava o céu das Gerais.
 



 

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