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quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Janos Lengel

 

O húngaro Janos Lengel que falava um português quase sem sotaque e era versado em muitas outras línguas, dizia que a nossa era complicada. “É a única em que você quando quer dizer não, diz “pois sim” e quando quer dizer sim, diz “pois não"!” Encontrei com ele algumas vezes na redação do Correio da Manhã; ele e meu pai Hélio Ferreira Rocha, se davam bem. Principalmente porque entre outras editorias, Lengel tinha relações com os Esportes e volta e meia estava na Europa cobrindo clubes brasileiros que excursionavam por lá.

Eram outros os tempos. Terminado o campeonato carioca os times grandes, iam para a Europa atrás de jogos caça níqueis para pagar o salário dos jogadores.

Vai valer a pena?

 Os israelenses mortos ou capturados pelo Hamas valem o território que a direita encabeçada por Bibi Nethanyahu vai se apossar na Palestina? É claro que as notícias que chegam até nós, trazidas pelas agências internacionais, não revelam exatamente o que está acontecendo no local. Os mortos judeus são em número maior ou menor do que o noticiado? Nunca saberemos. Os israelenses por acaso descobriram que o território do qual vão se apossar é rico, por exemplo, em algum mineral estratégico no futuro? 


Estudantina Musical

Ficava na Praça Tiradentes e chamava-se Estudantina Musical. Era uma gafieira e como todas das gafieiras era um lugar de respeito. Se você se engraçasse lá dentro a segurança aparecia rápido e você tinha que descer, mais rápido ainda, as escadas que terminavam na calçada. Um amigo meu que não acreditou nos protocolos da casa foi irremediavelmente posto na rua. Eu só vi o que tinha acontecido quando, por acaso, cheguei na varanda, por trás do conjunto que animava o baile. Resultado: pegamos um ônibus e fomos gastar os trocados num bar de Copacabana.

A Estudantina fazia sucesso porque nós, a rapaziada que se considerava de esquerda, costumava passar por lá nas noites dos fins de semana. A direita nos chamava pejorativamente de “Esquerda Festiva”, mas nós levávamos a sério nossas posições. Tínhamos razoável conhecimento das obras de Marx – eu, por exemplo, tinha lido a versão simplificada de O Capital, livro da Editora Zahar que resumia o calhamaço escrito pelo revolucionário alemão. Gramci, Guevara, e até Trotsky eram leituras mais ou menos comuns na Universidade do Brasil. Ou até antes, quando ainda cursávamos o segundo grau.

Parte da esquerda universitária, classe média da zona Sul do Rio de Janeiro, achava importante frequentar os mesmos ambientes onde o proletariado urbano se divertia. Na Estudantina supunha-se haveria congraçamento. Outro motivo é que levados pelos mesmos desejos alguns artistas, atores, músicos também passavam por lá. E às vezes davam uma canja. Na verdade eu não me lembro de ter assistido nenhuma performance desses ícones da Bossa Nova, mas havia sempre a esperança de encontrar uma Nara Leão, um Carlinhos Lira, um Vinícius de Morais.

A bebida não era cara, bebia-se principalmente cerveja e a possibilidade de sair com algumas das mulheres que iam se divertir na gafieira era nenhuma. Na verdade as frequentadoras eram, em geral, um pouco mais velhas que nós estudantes ruins de grana – não havia dinheiro pra levar a namorada a um bar e muito menos a um dos hotéis vagabundos das cercanias. Ainda assim voltávamos pra casa felizes depois de termos estado nos locais “onde o povo está!"

Na mesma Praça Tiradentes ficava outra gafieira, mas sem o charme da Estudantina. Chama-se Elite e durante um baile de carnaval o chão do salão cedeu e os frequentadores caíram na sapataria que ficava no térreo. Houve apenas ferimentos leves, mas essa já outra história. 

sábado, 16 de dezembro de 2023

ERRO E ARREPENDIMENTO

 

Há erros passíveis de serem consertados. Outros não. Às vezes porque o tempo passou, outras porque as circunstâncias mudaram radicalmente. Algumas vezes você fica com raiva do erro que cometeu. E esse é o meu caso.

Fazia o curso primário – hoje com outra nomenclatura – na Escola Uruguai 8-6. Não sei o significado de 8-6, mas eu gostava da escola na Rua Ana Neri, pertinho de casa, em São Cristóvão.

Bom, todas as manhãs de um dia qualquer da semana, antes das aulas, minha turma e a do ano imediatamente acima eram liberadas para brincar no pátio. Naquele tempo os meninos eram todos loucos por futebol. Não existiam, é claro, jogos eletrônicos, etc, etc.

Então naqueles 40/45 minutos era disputada uma pelada de uma turma contra outra. Nós, teoricamente um ano mais novos, sempre perdíamos. Mas houve uma vez em que o tempo passava, as professoras já estavam a caminho de acabar com a aula recreativa e o jogo estava zero a zero.

Então aconteceu. Uma bola cruzada da esquerda passou pelo goleiro e eu fiquei de cara com o gol. Só quem já jogou futebol – e fez gol – sabe da sensação. A bola estava ali, só faltava dar um toque, um ligeiro toque com o lado do pé, por segurança, mas... resolvi dar o chamado bico na bola. 

E furei. Ou seja, a bola passou e eu chutei o vento, a jogada mais ridícula – até hoje – que pode acontecer numa pelada ou no Maracanã. Ou em Wembley. Todos os olhos dos garotos da minha turma se voltaram para mim. Mas ao contrário do esperado ninguém reclamou. No minuto seguinte a professora chamou e nós todos suados tomamos o caminho da sala de aula. Foi uma única chance. Outras manhãs, outras peladas e sempre perdemos.

Bem que eu poderia ter batido de chapa, como dizem os jogadores profissionais de 2023. Se resta um consolo a pelada daquele dia fatídico terminou zero a zero.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Pai contra mãe

 

Esse é o nome do conto de Machado de Assis que contraria inteiramente a sua temática. O autor, um gênio da literatura em língua portuguesa, geralmente escreve sobre a burguesia do Rio de Janeiro, seus amores, seus problemas, suas aspirações. Mas no conto Pai contra mãe, Machado desce às ruas pobres do Rio de Janeiro.

Um pai precisa desesperadamente de dinheiro para salvar a vida do filho pequeno. Em seu caminho encontra uma escreva fugida pela qual se paga uma recompensa. O homem entrega a escrava a seu senhor, não sem ouvir os apelos de que está grávida e apanha muito de seu proprietário. No momento da entrega a escrava sofre um aborto. O homem não se importa, pega o dinheiro da recompensa e volta para salvar a vida do filho.

 Li todos os romances de Machado de Assis e muitos dos contos escritos por ele. Não encontrei nada parecido na literatura machadiana.  

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Quarteto em Cy

Cyva, Cybele, Cynara, Cylene. Saber que mais uma das meninas morreu dias atrás me deixa bastante triste. Parece que três delas já nos deixaram.  É que em determinado momento minha vida e a do Quarteto em Cy tiveram um encontro. Que acabou não durando muito tempo, um ano ou dois, talvez.

Mas minha memória ainda registra de maneira clara esse tempo. Em 1962 meu pai, cansado de pagar colégios caros – O Santo Agostinho, no Leblon e o Colégio Rio de Janeiro em Ipanema e me ver ser inapelavelmente reprovado, fez minha matrícula no Colégio Estadual Souza Aguiar, no Centro do Rio, curso Clássico. Não fui pessoalmente fazer a matrícula porque estava servindo o Exército no Oitavo Grupo de Artilharia Motorizada, quartel no Leblon.

Curso Clássico foi como a entrada num novo mundo. Porque não precisava estudar Física, Química, Biologia, Matemática, matérias responsáveis pelos meus fracassos anteriores. De aluno relapso passei a brilhar nas aulas de português e literatura. Minha professora, catedrática de língua hispânica da Universidade do Brasil (Hoje URRJ) gostava dos meus testos.

Alguns contos que escrevi foram parar no Caderno Literário do Correio da Manhã, aumentando meu prestígio.  Na minha sala encontrei Cylene, a mais nova das irmãs e que, aliás, deixou o Quarteto quando começava a fase de sucesso. Gravação de discos, shows, acompanhando gente como Tom Jobim e Vinícius de Morais. 

Claro que eu tentei namorar Cylene. Afinal pelo menos nas aulas de literatura eu era o cara! Não deu, ela já namorava um futuro médico com quem, aliás, se casou. Isso no primeiro ano do curso. Acho que hoje se chama primeiro ano do Segundo Grau.

 Acho que fomos nos tornando amigos porque depois das aulas caminhávamos pela Avenida Chile para pegar ônibus em direção a Zona Sul. As meninas moravam num apartamento no Flamengo, bem perto da praia. Eu morava no Jardim Botânico. Quem fazia o mesmo percurso, às vezes junto com o grupo, era a futura estrela, Leila Diniz. Mas Leila morava em Santa Teresa e ficava no meio do caminho na Avenida.

Para que se tenha ideia da amizade, estive próximo de um acontecimento que marcou a vida das meninas do quarteto. Numa de suas loucuras, simpáticas loucuras, Vinícius de Morais, de repente resolveu tomar o rumo da Europa. E quis levar a Cynara com ele. Uma viagem às pressas, por motivo indecifrável. Apesar da proximidade, apesar da importância para o grupo ter o poetinha por perto, a recusa veio acompanhada de um tremendo stress.

Mas nada mudou. Recusado, Vinícius, levou consigo a noiva de um rapaz, filho de um grande empresário, que fazia parte do grupo que vicejava em torno dele. Cynara veio desabafar comigo, e eu realmente não sabia o que dizer.

Outra passagem que lembro bem foi quando eu e meu colega de turma Sebastião Chaves, estávamos no apartamento do Flamengo com as duas irmãs mais velhas, Cywa e Cybele. As duas irmãs mais novas tinham ido à Bahia visitar a mãe.

 Não tenho a menor ideia de como fomos parar lá, nem o motivo. Até porque entre nós – eram outros os tempos – nunca houve nada mais do que amizade. No meio da noite Cywa teve um momento de pânico, quando de repente uma espécie de visão das irmãs ensanguentadas, vítimas talvez de um acidente na estrada, fez com seus nervos fossem seriamente abalados. Eu e Sebastião tratamos de acalmar as coisas e a noite terminou.

Nessa época Cynara já devia ter concluído o curso e eu já estava namorando minha mulher. Minhas relações com meus amigos mais íntimos iam esfriando, incluída aí turma do colégio Souza Aguiar, que nunca mais encontrei.

      

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Arrasta pés

Funcionava assim. A mesa da sala era empurrada para um canto, ou retirada para outro cômodo do apartamento, as cadeiras eram colocadas junto às paredes. A vitrola (esse era o nome do aparelho produtor de som) era um móvel razoavelmente grande, estilo pé palito.  Além da vitrola também cabia ali um rádio AM, onde os pais podiam ouvir também notícias em high fidelity.  Ou alta fidelidade.

E havia os discos, os mais antigos, menores e mais grossos em 78 rotações por minuto, e apenas duas músicas. A cada dança era preciso trocar o disco; as vezes valia a pena ouvir o lado B. Depois vieram os LPs, seis músicas de cada lado, feitos de vinil.

Os convidados para o arrasta pé (era esse o nome do baile) não podiam ser muitos, claro, e às vezes quem ficava de fora acabava dando um jeito e entrava. Mães atentas serviam refrigerantes aos convidados E Salgadinhos quando se comemorava o aniversário do anfitrião.

Nesse tipo de dança o casal ficava abraçado. O rapaz com a mão nas costas da menina ela com a mão no pescoço dele (como na música Dois pra lá Dois pra da dupla Aldir Blanc/João Bosco). E dançar de rosto colado era o máximo, e um indício de que a menina podia topar um namoro.

Da vitrola saia o som de Frank Sinatra, Roy Hamilton, Sammy Davis Júnior, Aretha Franklin, Henry Mancini & Orquestra, Waldir Calmon. Muitas vezes trilhas sonoras de filmes de sucesso, como Pic Nic (não me lembro do título em português) faziam sucesso nos arrasta pés!

 Mas para dançar o chamado “puladinho” era preciso o som músicas dos organistas brasileiros Ed Lincoln e Walter Wanderley.

A chegada da Bossa Nova, com suas músicas intimistas, contribuiu para apressar o fim dos arrasta pés. O Rock ‘n Roll foi tomando o lugar das melodias mais serenas dos anos 50. Dançar abraçado caiu de moda. A geração arrasta pé cresceu, ficou adulta, vieram outros interesses como ingressar numa faculdade ou fazer um concurso para o Banco da Brasil, na época um emprego seguro e bem remunerado. 

Os últimos acordes desse tempo, no meu caso pelo menos, foram na Associação Atlética Banco do Brasil, no Leblon, numa tarde/noite de domingo. Música ao vivo tocada por um conjunto do irmão do cantor Cauby Peixoto.

Foi nesse embalo que ouvi pela primeira vez “O Barquinho” de Roberto Menescal, a música ícone que marcaria o início da Bossa Nova.