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quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Sabiás

Elas são comuns tanto nos gramados aqui de casa quanto nos pratos com frutas que deixo pelas manhãs no que se convencionou chamar de quintal, Estrategicamente presos em um poste de luz. Estão quase no topo da cadeia alimentar local, mas nessas disputas preferem não enfrentar os bem-te-vis. Às vezes enfrentam. Às vezes também não se importam de compartilhar as refeições com pássaros de menor porte, como os sanhaços, os tiês e um casal de saíras que mora aqui perto. De vez em quando uma Araúna de Bico Branco - estão sempre de passagem - vem compartilhar o repasto.

Os Jacus – do tamanho de frangos, mas com rabo grande, chegam meio desajeitados e acabam derrubando as frutas no gramado. O que é um risco pra todo mundo por que os cachorros, pastores alemães, não gostam muito de ver seu território invadido. Mesmo por passarinhos inofensivos.

O problema é que volta e meia um casal da espécie resolve fazer ninho na varanda. É uma atitude sábia, porque filhotes & pais ficam abrigados das chuvas, do vento mais forte e, até de eventuais predadores – à noite ouvimos o pio de uma coruja numa das árvores do quintal.

O problema é que, para não provocar stress em pais e filhotes acabamos evitando passar em frente ao ninho, estrategicamente construído num vaso de cactos junto à parede. E isso atrapalha minha caminhada na varanda em torno da casa, trinta e oito voltas, o equivalente a dois quilômetros, todos os dias.

Mas acabamos, eu e as sabiás, minimizando o problema: eu caminho só em dias ímpares e elas suportam minhas seguidas passagens em frente ao ninho nos dias pares.  

A Água vai desaparecer?

Foi há coisa de seis, talvez sete anos. Ou mais, não sei. De repente as notícias apareceram, alicerçadas em dados mais ou menos concretos e pelo menos uma parte das pessoas passou a acreditar.

Às vezes insistentes, as matérias fizeram com que muitos de nós começássemos a ficar sob a pressão da possibilidade de uma drástica redução da água no planeta Terra. Alegava-se que em alguns locais o abastecimento já era feito utilizando-se aquíferos do período Jurássico, e vai por aí.

Discuti o tema com um hoteleiro da região de Teresópolis. Naquele momento ele acompanhava, muito preocupado, as notícias sobre a necessidade de economizarmos água. Argumentei que o planeta tinha 3\4 de superfície líquida e os processos de dessalinização eram cada vez mais simplificáveis. Países do Oriente Médio já dependiam unicamente da água dos oceanos, mas meus argumentos foram em vão.

Não chegamos a uma conclusão sobre o destino da água utilizada nas casas, nas indústrias, na agricultura. Meu argumento era que, deixada na natureza, toda a água do mundo volta a ser potável.

Parte da argumentação do meu "antagonista" era que a água está sendo cada dia mais poluída e inviável para consumo humano. Tudo bem, mas são inúmeros os processos naturais de despoluição que possibilitam consumir água potável em todo o planeta.

A conversa parou por aí, cada um resguardando seu ponto de vista.

Aliás, meu objetivo era entrevistar o dono do hotel sobre o crescimento do turismo no município de Teresópolis. Fiz meu trabalho, o fotógrafo fez o dele. Fui convidado, e aceitei, a almoçar no hotel e acabei escrevendo cinco laudas de texto que funcionaram como matéria publicitária. Esse era o objetivo dos proprietários da revista para qual eu trabalhava. Não me importei, fiz o melhor que pude e a matéria ganhou quatro páginas com boas fotos do mobiliário, dos apartamentos, cavalariças, um lago e muitas outras atrações para quem vem descansar na serra fluminense.  

Passaram-se alguns anos e o noticiário sobre o risco do planeta tornar-se um deserto como o da Namíbia, ou o Saara, desapareceu da mídia.

Nossa preocupação agora é com o excesso de água, produto do aquecimento global.

O derretimento de geleiras nos polos, por exemplo, pode fazer subir o nível dos oceanos, inviabilizando cidades como Santos e o Rio de Janeiro. E outras, muitas outras, plantadas nos litorais pelo mundo.   

IA do nosso lado!?

Lei redigida com auxílio da Inteligência Artificial é aprovada por vereadores em Porto Alegre.

O presidente da casa acha que foi aberto um ‘precedente perigoso’. O Projeto de Lei apresentado pelo vereador Ramiro Rosário (PSDB) isenta moradores de cobrança sobre a substituição do medidor de consumo de água caso o objeto seja furtado. O texto foi totalmente redigido pela ferramenta ChatGPT da empresa Open Al”.

O vereador diz ter escolhido um projeto de lei que fosse simples e fugisse de temas polêmicos. “A Inteligência Artificial não se limitou a entregar o texto que eu propus, ela foi além, propôs prazos e incluiu um artigo que não tínhamos pensado. Eu achei sensacional”, concluiu.

E é. O mais importante é que a IA tomou posição em defesa da parte mais fraca nesse tipo de embate, o consumidor que sempre leva a pior nesses casos.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Bill Gates e o ócio nosso de cada dia

 

Saiu na mídia:

Bill Gates vê possibilidade de semana de três dias com avanço da Inteligência Artificial.

“Se você diminuir o zoom, você sabe que o propósito da vida não é apenas trabalhar. Então, se você eventualmente conseguir uma sociedade onde você só tem que trabalhar três dias por semana ou algo assim, provavelmente está tudo bem se as máquinas puderem fazer toda a comida e não tenhamos que trabalhar tanto”, disse Gates.

É mesmo?! Sei não. Acontece que humanos tem tatuado no DNA o estigma da luta diária, da batalha por comida por espaço, por direito a ter mais do que o próximo. Vivemos de trabalhar duro desde que éramos caçadores/coletores. Passamos pelos arados da agricultura primitiva, e chegamos aos teares da Revolução Industrial na Inglaterra no século 18: homens, mulheres e crianças de até cinco anos manipulavam, 12 horas por dia, maquinas que frequentemente amputavam suas mãos e braços.

Os regimes de trabalho melhoraram um pouco ao longo de século 20, com a entrada no jogo das novas tecnologias e das legislações trabalhistas, que reduziram um pouco o esforço físico e os riscos, mas em compensação roubaram o emprego de muita gente. E parece que dentro em breve alguns de nós vão ingressar em ambientes onde a única tarefa será programar a Inteligência Artificial. O resultado é a inevitável redução do tempo dedicado ao trabalho como previsto por Gates.

Mas saberemos lidar com a nova realidade do aumento do ócio? Isso porque em duas ou três gerações o trabalho vai representar, com certeza, um número bem menor de horas no dia a dia dos humanos. Máquinas inteligentes estarão pegando no pesado (ou não tão pesado assim) em nossas casas e locais de trabalho. Em alguns casos os humanos mais brilhantes serão chamados apenas para pequenas intervenções ou correções de curso. Mais tarde até mesmo essas intervenções ficarão por conta exclusiva da IA.

Vai ser bastante difícil conciliar o caçador de Mamutes, o conquistador dos povos mais frágeis, os guerreiros das Termópilas, com um novo homem. Cujo único exercício físico será numa esteira na academia localizada dois andares abaixo do apartamento em que mora.

E aí? Haverá um aumento exponencial na taxa de suicídios? É bom lembrar que a mídia evita noticiar suicídios e o número é maior do que imaginamos nos dias de hoje. Nos tempos em era repórter da Editoria de Polícia de O Globo, o jornal não queria saber quem se suicidou, onde, quando ou por que. O carro de reportagem não saía do pátio ao menor indício do que o corpo encontrado fosse o de um suicida. Era o único item que igualava ricaços, classes médias e pobres.

É claro que, desde espetáculos como o futebol, fórmula 1, Olimpíadas, shows cada vez mais tecnológicos e grandiosos, viagens de turismo ao alcance de quase todo mundo, eventos culturais, vão tentar substituir um cada vez maior espaço para o ócio. Dará certo?

O que acontece quando ambulâncias com robôs paramédicos puderem atender quem passa mal em casa, ou quando os táxis dispensarem motoristas e pudermos pedir que máquinas especializadas (talvez drones mais espertinhos) deixem na nossa porta tudo o que pedimos para o jantar. O que faremos quando não houver trabalho no mundo? Passaremos o tempo todos vendo robôs disputando partidas de futebol? Artistas virtuais levarão para nossas telas shows de músicas compostas pela Inteligência Artificial.

Para humanos o ócio pode ser mortal.

Ou como preveem alguns futurólogos Rivotril e Canabidiol vão fazer inexoravelmente parte da nossa cesta básica.

 

 

Celulares

 Quanto mais é aperfeiçoado, quando mais novos programas são introduzidos, mais dependentes nos tornamos do Celular. No passado distante, quando a televisão chegou ai Brasil – eu era criança – dizia-se que a partir de então as pessoas estavam deixando de conversar. De interagir, mesmo dentro de casa.

Não sei exatamente o que acontecia nos tempos antes da televisão. Mas me lembro que algumas famílias, em São Cristóvão, bairro da zona norte do Rio, território da baixa classe média, as famílias costumavam levar, ao entardecer, cadeiras para a calçada. Eram longos bate papos, inclusive com vizinhos próximos, que duravam até as primeiras horas da noite.

É claro que no horário nobre dos novelões, as conversas entre pessoas que estavam na sala em geral se limitavam a comentários sobre as personagens da trama. Mas nada tão radical quanto pessoas procurando isolamento, empunhando um celular, absortas, indiferentes ao que se passa ao lado, envolvidas com qualquer texto, foto ou vídeo que apareça nessa irritante minúscula tela. Talvez no futuro esse lapso de tempo venha a ser chamado de a Era dos Celulares.

Mas até lá os celulares com certeza terão outro nome.  

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Desemprego em queda

O desemprego - o IBGE fala em 7.7% contra 12% no passado próximo - diminui porque o objetivo agora é deixar que parte do dinheiro em circulação na economia flua para um maior número de bolsos. Com um pouco mais de grana, quem está acima da linha de pobreza começa a virar consumidor.

Consumidor tímido, porque antes é necessário pagar contas que ficaram em aberto no passado. Depois pessoas agora empregadas começam a desejar uma televisão nova, um carro usado, a troca do celular por outro mais moderno, um tênis de marca, uma viagem para ver os pais numa cidade do Nordeste.

As indústrias agradecem; o comércio também! Idem para o setor de serviços!

Então a queda na taxa de desemprego é sempre uma boa notícia.

  

Amortais


O antropólogo Yuval Noah Hararari, autor do best seller Sapiens, acha que em breve seremos amortais. Ou seja, não haverá mortes por doenças ou envelhecimento. Claro que não vai ser possível continuar vivendo se formos vítimas, por exemplo, de um acidente de trânsito, ou se alguém atirar em nós durante uma briga ou um assalto a mão armada.

 É possível viver 150 anos ou mais? Acho que sim. Ainda mais com a entrada em cena da Inteligência Artificial e o que a partir daí pode ser feito para prolongar a vida.

Mas para pessoas como eu, com mais de 80 anos e alguma dificuldade de adaptação aos conteúdos do século 21, as coisas vão se complicar. E muito. Será preciso voltar aos bancos escolares para aprender a conviver com o futuro? E meu idoso cérebro, já bombardeado por ideias nunca imaginadas, vai poder assimilar toda a modernidade futura? Será que aos 150 anos vou querer continuar vivo?

Impossível saber!